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Como falar de morte pelo coronavírus com crianças?

Como falar da ‘morte pelo coronavírus’ com crianças?
Pixabay

A morte é a única certeza que temos, a partir do momento em que o ser humano passou a compreender a finitude da vida, mas nem por isso consegue aceitá-la com naturalidade.

Em diversas culturas e religiões, a morte tem diferentes significados e há rituais e simbolismos próprios.

Em geral a ideia de morte vem acompanhada de grande pesar, medos e angústias.

Aspectos estes que muitas vezes nos dificultam encará-la como um processo natural da condição humana.

Em alguns casos, também há o sentimento de vulnerabilidade e ameaça, através da crença de que a morte nos atingirá logo em seguida da pessoa que faleceu.

Outras vezes, são frequentes as manobras para retardá-la (tentativas desesperadas de se atingir a “juventude eterna”), ou ocultá-la.

E agora estamos vivenciando uma situação de pandemia mundial, semelhante à 2ª Guerra Mundial, mas lutando desesperadamente contra um inimigo comum, invisível, microscópico.

Crianças pequenas têm dificuldades de compreender por que não podem mais ir para a escola, ver os amigos, assistir as aulas e participar das brincadeiras e atividades; não podem ir a parquinhos, cinema, praia, visitar os familiares e amigos ou recebê-los em casa.

Podem se manifestar irritadiças e desobedientes, testando os limites da paciência dos pais.

Estes se exasperam tentando explicar a situação, mas também se sentem impotentes.

Recebemos notícias diárias de milhares de mortos, e lamentavelmente algum(ns) desse(s) morto(s) pode(m) ser algum familiar ou pessoa próxima da criança.

E mais grave, diante do volume de mortos, nem é possível fazer velórios e funerais, a família nem tem direito à despedida, e com isso a criança também fica impedida de compreender o significado da morte.

E agora, quando vemos notícias do número crescente de mortos, ficamos assustados com a proximidade – inclusive se tivemos familiares, conhecidos ou amigos entre os mortos -, e de forma consciente ou inconsciente podemos influenciar as crianças com nossas angústias.

Então, essa situação está servindo também para adaptarmos nossa linguagem para que elas possam compreender o que está acontecendo.

E isso mexe com as nossas crenças – e angústias – frente à finitude da vida, com concepções religiosas ou materialistas, etc.

No caso de falecimento de alguém pelo Coronavírus, dependendo da idade da criança a quem você tenha que explicar que aquela pessoa morreu.

Você pode usar termos como “um bichinho ruim que deixou a pessoa doente”, enquanto a ajuda na higienização.

Cuidado que às vezes pode ser uma ‘faca de dois gumes’: a criança pode perguntar se a pessoa que faleceu não lavava as mãos.

Mas você pode responder que sim, mas que ela teve contato com alguém que não lavava, por exemplo, e que por isso é importante sempre lavar as mãos.

A morte costuma ser um assunto muito difícil, mesmo entre os adultos.

Para as crianças, é muito confuso, pois elas não sabem o que aconteceu com a vovó, ou com o cachorrinho de que ela tanto gostava.

Nessa fase o animismo infantil (que dá vida ao sol, aos brinquedos etc.) acaba por impossibilitar a compreensão da morte de fato.

Porém, por volta dos 4 ou 5 anos de idade as crianças começam a entender as relações da vida, e percebem que algumas coisas “morrem”, embora ainda não saibam explicar exatamente o que aconteceu com elas.

E quando a criança começa a perguntar, isso ocorre porque ela está tentando entender no concreto um conceito abstrato, e sob seu ponto de vista egocêntrico (somente em relação a si mesma).

Da mesma forma, os fatores externos também influenciarão na forma como esta criança vai elaborar o luto da perda de alguém:

  • o significado da morte para esta família, os conceitos morais e religiosos envolvidos na morte (se acreditam ou não em reencarnação, ou se entendem que a morte é o ‘fim’ de tudo, por exemplo);
  • o tipo de relação da criança com o pai/mãe sobrevivente; a dinâmica familiar, a forma como o(s) pai(s) morreu(ram);
  • alterações bruscas na rotina, formas de reorganização familiar após a perda.

Por exemplo, um dos graves erros das famílias é tentarem colocar a criança no lugar do pai/mãe que faleceu, ainda mais se for no mesmo sexo da criança: “agora que seu pai morreu, você é o homenzinho da casa”.

Isso não é recomendável, porque coloca a criança em um papel misturado com o(a) do(a) genitor(a) falecido(a), podendo causar problemas de identidade, papeis sociais e sexuais, além de poder ser uma forma mais simplificada de não precisar alterar o restante da família.

Outro comportamento inapropriado é dizer que a pessoa (ou animal, no caso do animalzinho de estimação, por exemplo) “virou estrelinha”, ou “está dormindo”.

A criança poderá desejar “virar estrelinha”, querer “ir para o céu”, sem compreender o real significado desse termo, ou ter medo de dormir, associando-o com “morrer”.

Seguem então algumas dicas importantes:

Permita que seu filho faça todas as perguntas que quiser

Permita que seu filho faça todas as perguntas que quiser, e formule suas “hipóteses” ou “teorias” a respeito da morte de alguém.

Se você (e/ou a família toda) a impedirem de perguntar, e tratarem a morte como um “tabu”, vão inibi-la de saber o que está acontecendo, se sentirá excluída da família.

Ela pode procurar por conta própria em fontes inadequadas (ex.: em filmes de terror) e, principalmente, não se sentirá capaz de fazer perguntas sobre outras coisas da vida (ex.: sexo, religião).

Isso poderá comprometer sua vida acadêmica (ficará inibida em fazer perguntas ao professor e não terá iniciativa para buscar o conhecimento, perdendo a autonomia de pensamento);

Procurem falar de morte com calma com a criança

Procurem falar de morte com calma com a criança. Se alguém começar a falar com choro ou gritos, a criança poderá associar a morte com desespero e medo;

A morte não pode ser um assunto “proibido”

NUNCA a exclua das conversas, para que a morte não seja um assunto “proibido”, se a criança quiser falar ou perguntar acerca disso, dê-lhe a oportunidade, pode ser com uma história, ou pode fazer um desenho;

Não “desapareça” com todos os objetos da pessoa falecida

Em contrapartida, não “desapareça” repentinamente com todos os objetos da pessoa falecida.

A criança pode pedir para ficar com algum objeto (ex.: uma roupa, um relógio), principalmente se for do pai/mãe, como forma de buscar sua presença;

Cada criança pode reagir diferentemente à morte

Cada criança pode reagir diferentemente à morte de alguém, sendo que algumas podem continuar brincando normalmente, sem lágrimas nem tristeza, dando a impressão aos adultos de que ela “se conformou”.

Mas na verdade pode ser um mecanismo de defesa psíquica de evitar se envolver emocionalmente para não sofrer.

Por isso, fique atento(a) e, se necessário, busque ajuda de familiares (ex.: avós) e de profissionais.

É isso, espero que esse artigo traga boas reflexões.

CUIDEM-SE! Vai passar!

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Escrito por Denise M. Perissini

Psicóloga clínica e jurídica CRP 06/38483. Coordenadora da Pós Graduação em Psicologia Jurídica na UNISA Autora de livros e artigos de Psic.Juríd. de Família.

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