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Filho único: mimado ou independente?

Filho único mimado ou independente
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Olá a todos!

No artigo de hoje, vamos falar sobre um assunto que, volta e meia, retorna à discussão nas famílias brasileiras: o filho único.

Suficiente ou não, o filho único é sempre objeto de opiniões polêmicas, ora é o autônomo, o que “se vira”, toma a iniciativa e amadurece sozinho na companhia dos adultos, com reduzidos referenciais de outras crianças, ora é o mimado dependente, que exige que “o mundo lhe sirva”.

De qualquer forma, se torna uma realidade cada vez mais presente nas famílias brasileiras, inclusive se considerarmos as “famílias mosaico”.

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Famílias do século XXI são menores

As famílias brasileiras estão se tornando cada vez mais reduzidas, e desde os anos 2000 são compostas por menos filhos do que nos anos 60. Diversos fatores contribuem para esse quadro:

  • A urbanização do país, que diminui a necessidade de tantos filhos para trabalharem nas lavouras;
  • Maior acesso à educação e saúde, reduzindo-se a mortalidade infantil, e a possibilidade de adoção de métodos contraceptivos;
  • Maior participação da mulher no mercado de trabalho e nas carreiras acadêmicas, o que seria praticamente impossível com uma prole numerosa;
  • Análise das despesas mensais e anuais com os filhos, não somente em função da renda pessoal de cada um dos pais, mas também dos índices inflacionários.

Antigamente, só havia as seguintes explicações para um casal ter um filho só: a infertilidade, a impossibilidade de ter outros filhos, ou o falecimento de um dos filhos.

Atualmente é opção de muitos casais, e as estatísticas vêm aumentando desde o censo 2010[1].

Filho único mimado ou independente
Foto by Pexels

E isso faz toda a diferença, principalmente frente às cobranças dos avós, amigos e da própria criança em “ter um irmãozinho”.

Porque aqueles que optam pelo filho único se sentem mais seguros para investir melhor nele, nos aspectos afetivo e financeiro, enquanto aqueles que acreditam que precisam ter mais filhos se sentem culpados e pressionados, o que prejudica a família.

Em alguns casos, os casais justificam o impedimento para ter outros filhos como: instabilidade econômica e relacional, conflitos entre o casal e guarda do filho, insegurança quanto ao futuro e projetos de vida, dificuldades econômicas ligadas à saúde, educação, alimentação e lazer.

O excesso de trabalho dos pais também pode ser um fator para que os casais optem por ter apenas um filho.

Muitos pais trabalham o dia inteiro, temem que seus filhos únicos fiquem expostos à violência, então os isolam em casa (vendo TV, videogame e/ou computador), e acreditam não terem condições de dar atenção a mais filhos (um só, por vezes, já é “demais”).

Solidão & Socialização

Um dos grandes temores dos adultos, principalmente dos pais, é a crença de que o filho único é “solitário”, mas a solidão pode ser um grande fator de autoconhecimento, importante para o desenvolvimento do indivíduo, e também para a imaginação e a criatividade.

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E a solidão também não é “exclusividade” dos filhos únicos, uma vez que existem famílias em que os irmãos brigam tanto, que passam anos sem se falarem, não se encontram nos eventos e datas comemorativas (ex.: natal, aniversários, velórios), e não se ajudam em caso de necessidade (é “cada um por si”, como se cada um fosse “filho único”…).

Realmente o filho único acaba amadurecendo mais cedo convivendo com tantos adultos, e sobram poucas distrações para ele: livros, computador, televisão, videogame (e algum animal de estimação, se possível).

Segundo NÁJERA [s.d.], o filho único utiliza um vocabulário demasiado rico, se apropria de ideias que não se encaixam em sua idade, e seus costumes, diversões e vida em geral tendem a parecer com a dos adultos.

Filho único mimado ou independente
Foto by Pexels

De caráter bastante possessivo, costuma ter um nível intelectual superior ao normal para sua idade. Tudo isto o diferencia do grupo, provocando o repúdio de outros em torno dele, não se encaixa e não sabe superar este problema inesperado: que os outros não o aceitem.

 O filho único tem o seu lado positivo, de ser o “centro das atenções”, principalmente em festas de aniversário e natal, ter os brinquedos só para si sem precisar dividir com ninguém.

Mas por outro lado, alguns reclamam de solidão, de não terem outras crianças para brincar por mais tempo, ficam observando outras crianças com irmãos e gostariam de ter essas experiências.

Por vezes, os filhos únicos passam mais tempo na internet, uma atividade individual e sem interação pessoal, do que crianças com irmãos.

Por isso, precisam de atividades que envolvam a socialização – e nesse aspecto, segundo MANIR (2011), o filho único pode sair-se melhor do que a criança com irmãos, porque busca amigos por sobrevivência, para conseguir o que quer, enquanto a criança com irmãos pode se acomodar e não buscar novas amizades.

Não faltam estereótipos ao filho único: por ser “o centro das atenções” dos adultos, são por vezes taxados de “egoístas”, “mimados”, “dependentes” e “imaturos”, “superprotegidos”. Mas na maioria das vezes isso não corresponde à realidade.

Uma pesquisa de TAVARES et al. (2004) com filhos únicos, primogênitos e não-primogênitos aponta que os filhos únicos não apresentam problemas de personalidade mais frequentemente do que as crianças com irmãos e até podem apresentar vantagens relacionadas à inteligência, desempenho acadêmico e sucesso profissional.

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Parecem ter tantos amigos quanto os não únicos, exercer a liderança e sentirem-se satisfeitos com suas vidas, tendem a exibir traços similares aos filhos primogênitos e parecem ter maior autoestima do que as crianças com irmãos.

De fato, o investimento afetivo e financeiro dos pais recai sobre o filho único, o que faz com que ele, em geral, capte as expectativas que os pais têm sobre ele no tocante ao desempenho escolar, e ele também passa a ser mais exigente consigo mesmo, porque só tem adultos como referência.

 Superproteção pode prejudicar o desenvolvimento do seu filho

O grande perigo dos pais de filhos únicos é a superproteção. Isso ocorre quando os pais idealizam demais esse filho, o quarto, a família, o(a) companheiro(a), e porque a maioria desses pais é de “primeira viagem”.

Mas, com isso, podem prejudicar o desenvolvimento da criança, na medida em que a privam de experiências que poderiam aumentar sua resiliência e adaptação social.

Mas, na verdade, os pais podem ser indulgentes, superprotetores ou permissivos demais seja qual for o tamanho da prole (geralmente, com o mais novo, ou com a criança de sexo diferente dos demais).

O problema é que, se forem superprotetores com uma criança só, isso pesa mais sobre os ombros dela porque, sendo filha única, não tem como desviar a atenção dos pais para o(a) outro(a) filho(a), e acaba carregando sozinha o fardo do cerceamento de oportunidades (MAMBRINI e ALVES FILHO, 2010).

Muitos pais se sentem culpados por trabalharem o dia inteiro e terem pouco tempo disponível para a criança, então querem, cobri-la de presentes (se isso é ruim com mais de um filho, intensifica-se com o filho único, que não terá outro(a) irmão(ã) para dividir tantos brinquedos e, com isso, poderá realmente se tornar egoísta e exigente, tiranizando a família).

Além disso, o filho único às vezes tem pouco ou nenhum convívio com outras crianças, exceto os coleguinhas da escola e os primos.

Mas em alguns casos, os primos podem ser bem mais velhos ou infantis demais.

E nem sempre os pais permitem tanta integração da criança única com coleguinhas da escola ou da vizinhança, por insegurança e superproteção deles próprios, pais, mas que podem se transmitir à criança, tornando-a insegura e tímida, o que pode lhe render a “fama” de “antissocial”.

Porém, com as transformações sociais, as mães precisam trabalhar e colocar seus filhos em creches/escolinhas cada vez mais cedo (antigamente as crianças ingressavam na escola aos 6 anos, agora já no 1º ano).

Filho únicomimado ou independente
Foto by Freepik

Então os filhos únicos, embora não tenham irmãos, terão que aprender a compartilhar com os coleguinhas, o que desfaz a propensão ao “egoísmo”.

E os pais têm que aprender a dividir seu foco de atenção e interesses em outros aspectos (como carreira profissional e estudos), sem se sentirem culpados por estarem afastados do filho o dia inteiro.

Depende, portanto, dos pais e avós saberem dosar os carinhos, atenção e presentes, com bom senso e equilíbrio.

Isso porque, se os pais não souberem dosar com sensatez os cuidados com o filho único, isso se refletirá na adolescência e vida adulta.

Ou se tornarão adolescentes dependentes e submissos aos pais, ou excessivamente rebeldes tentando reivindicar a liberdade que não tiveram (de forma pouco adequada, por vezes em comportamentos autodestrutivos…), e rompendo definitivamente com os pais.

Na vida adulta, têm que lidar sozinhos com o envelhecimento e falecimento dos pais, e se não estiverem amadurecidos (em função da dependência excessiva com eles), ficarão desorientados e buscarão relações afetivas patológicas, de dominação-dependência.

Seguem, então, algumas dicas importantes:

  • NÃO se preocupe com as cobranças das pessoas (família, amigos), por ter um filho único: muitos tentam enquadrar as famílias em estereótipos distintos da realidade que você e sua família vivem;
  • Dose sempre os limites e o afeto, como se seu filho tivesse irmãos: não o subestime, nem o superproteja. O desprezo fará com que ele se sinta inferiorizado; a superproteção o tornará inseguro e/ou arrogante (exigindo que todos lhe prestem serviços);
  • Estimule a interação social, e a prática de atividades físicas/esportivas. O filho único não deve ser criado em uma “redoma de cristal”, ou “gaiola de ouro”. E nem sempre é submisso, por não ter com quem disputar o afeto em casa. Por vezes, ele pode surpreendê-lo(a) por ser extremamente popular e até assumir postos de liderança (ex.: ser representante de classe);
  • Não permita que avós e outros familiares o tratem como “coitadinho”. Filho único não é sinônimo de “solitário”, se você também não o superproteger, tentando isolá-lo do mundo;
  • Observe os pedidos de seu filho por “ter um irmãozinho”: pode ser um desejo autêntico (por estar sendo criado de forma isolada e solitária, o que deveria servir de alerta a você para incentivar as interações sociais dele), pode ser uma reprodução de discurso alheio (ex.: de avós), ou uma crença de seu filho de que um irmãozinho é mais um “brinquedo” de que ele pode dispor quando quiser.

Espero que tenham gostado do artigo!

Até a próxima! CUIDEM-SE!!! 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MAMBRINI, V.; ALVES FILHO, F. Derrubando mitos do filho único – partes 1 e 2. IstoÉ Comportamento, ed.2123, 16/07/2010. Disponível em: <http://www.istoe.com.br/reportagens/88719_DERRUBANDO+MITOS+DO+FILHO+UNICO+PARTE+1>

MANIR, M. Comportamento: filho único. Cláudia Bebê online, 15/12/2011. Disponível em: <http://bebe.abril.com.br/materia/comportamento-filho-unico>. Acesso em 17 ago. 2013.

NÁJERA, J.A.V. O filho único. Portal da Família, [s.d.]. Disponível em: <http://www.portaldafamilia.org/artigos/artigo188.shtml>. Acesso em 17 ago. 2013.

TAVARES, M.B.; FUCHS, F.C.; DILIGENTI, F.; ABREU, J.R.P.; ROHDE, L.A.; FUCHS, S.C. Características de comportamento do filho único vs filho primogênito e não primogênito. Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v. 26, n. 1, p. 17-23, 2004. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rbp/v26n1/a07v26n1.pdf>.

[1] Fonte: <https://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo.html?id=3&idnoticia=2018&view=noticia>. Acesso em 07 maio 2021.

 

 

 

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Escrito por Denise M. Perissini

Psicóloga clínica e jurídica CRP 06/38483. Coordenadora da Pós Graduação em Psicologia Jurídica na UNISA Autora de livros e artigos de Psic.Juríd. de Família.

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