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Como escolhemos nossos companheiros?

Como escolhemos nossos cônjuges?
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Olá a todos!

Antes de iniciar esse artigo, queria te fazer algumas perguntas:

  • Você está casado(a), namorando, ‘ficando’, junto(a)?
  • Se sim, já se perguntou o que te fez escolher aquela pessoa?
  • Ela é muito semelhante ou muito diferente de você? Fisicamente? Comportamentalmente?

Nesse artigo vamos conversar sobre as maneiras com que escolhemos as pessoas com quem queremos estar junto para um relacionamento, ok?

Antes de mais nada, precisamos conhecer os processos psíquicos descritos pela Psicanálise como os que motivam a escolha do cônjuge: as relações objetais.

Em diversos excertos de suas Obras Completas, Freud sempre demonstrou o efeito das primeiras identificações da criança com os objetos (no caso, primordialmente pai e mãe), e que vão estruturar toda a vida erótica do indivíduo.

Toda a teoria psicanalítica centraliza a importância do amor como afeto que mobiliza as instâncias psíquicas (Id, Ego, Superego) e os direcionamentos (identificações, idealizações) para a eleição do objeto.

Porém, pouco se fala acerca da escolha conjugal: de que forma as instâncias do Ego e os direcionamentos determinam o objeto a ser amado?

Para a Psicanálise, os processos mentais são definidos pela existência de um conflito que estrutura a formação das três instâncias do aparelho psíquico: Id, Ego e Superego, e essas instâncias estão em relações dinâmicas, ou seja, em constante sucessão de eventos pela qual uma das partes pretende contrapor-se à outra. 

O Id é a estrutura da psique humana que aparece em primeiro lugar, já está presente desde o nascimento.

Durante os dois primeiros anos de nossas vidas é ele quem nos governa, através do princípio do prazer imediato (fome, sono, atenção, desconforto),  independentemente das consequências a médio e longo prazo que a satisfação desses instintos possam acarretar. 

O Ego, formado a partir dos dois anos de idade, é mais focado para o exterior, e é a partir de quando ele se forma que começamos a pensar sobre as consequências práticas daquilo que fazemos e os problemas que podem ser gerados através de nossas condutas.

O Ego se contrapõe ao Id porque para este último as decisões e atitudes são instintivas, enquanto que no Ego as decisões são analisadas a partir dos valores morais, culturais e sociais vindos do mundo externo (sobretudo dos pais), e que estruturam a formação do Superego.

Assim, para a Psicanálise, a personalidade é decorrente do jogo de forças entre essas três instâncias, cujo desequilíbrio pode gerar estresse, sofrimento e até algumas patologias.

A partir do mito grego de Narciso, o jovem que se enamora de sua própria imagem no lago e morre afogado ao mergulhar para buscar essa imagem.

A Psicanálise freudiana desenvolveu o conceito de narcisismo[1]: uma fase própria do desenvolvimento humano, quando se realiza a passagem do autoerotismo, do prazer centrado no próprio corpo, para o reconhecimento e a busca do amor em outros objetos – diferentes de si.

Os desdobramentos do narcisismo são de fundamental importância para se determinar a qualidade e o sucesso das relações objetais – incluem-se aí as relações conjugais – do sujeito em sociedade: se o outro não o satisfaz, se tenta se opor às vontades do sujeito ou ameaça sua autoestima, abre-se o terreno para preconceitos, fanatismos, violência, aniquilação. 

Segundo a teoria psicanalítica, no casamento, a busca de prazer sexual não é o fator de estabilidade da relação, e sim a manutenção das defesas narcísicas.

Para a continuidade da relação, é necessária também a idealização e uma forma específica de identificação. Mas vamos entender melhor cada um desses elementos.

Enfim, são muitas questões complexas, que desafiam a nossa racionalidade. Se apaixonar, querer ficar junto, querer casar e ter família, são necessidades da grande maioria dos animais evoluídos e também do ser humano.

Quando estamos apaixonados, idealizamos a outra pessoa, não vemos os defeitos, problemas, queremos que ela seja sempre do jeito que a gente quer, não pensamos nas dificuldades.

O amor amadurecido encara esses problemas e dificuldades, mas pensa que ‘o Outro não tem nenhuma obrigação de me fazer feliz’, mas sim que ‘eu sou feliz perto do Outro’.

Quando se busca a felicidade no outro, deposita todas as suas carências nessa pessoa e ela não tem necessidade nem obrigação e nem condições de carregar isso.

A consciência disso pode ajudar as pessoas a terem mais tranquilidade e maturidade para escolherem seus namorados(as)/companheiros(as)/ cônjuges, para não termos tantas relações desfeitas, tantas frustrações, decepções, insatisfações que poderiam ser trabalhadas de forma interessante através da terapia individual e/ou de casal ok?

Espero que tenha sido útil, e nos vemos nos próximos artigos!

Referências:

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, p. 440-443, 2016.

FREUD, S. Romances familiares. In:_. “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos (1906-1910). Edição stardard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. IX, p. 127-136, [s.a.].

Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (Contribuições à Psicologia do Amor I) (1910). In: . Cinco lições de Psicanálise, uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1910). Edição stardard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XI, p. 98-105, [s.a.].

. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: . A história do movimento psicanalítico, artigos sobre a metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Edição stardard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XIV, p. 44-64, [s.a.].

[1] Conforme esclarecem Laplanche e Pontalis (2016), na Psicanálise o termo ‘narcisismo’ é extraído do mito de Narciso, um jovem que, ao ver pela primeira vez o reflexo de seu rosto no lago, ficou encantado com sua beleza e, sem reconhecer que era uma imagem, desejou tocá-lo, e ao se inclinar, caiu na água e morreu afogado. O mito nos fala da compulsão por buscarmos um ideal de perfeição, que se acredita só possa ser conseguida consigo mesmo.

   O narcisismo primário, ou também chamado em Psicanálise de ‘Ego Ideal’, designa o primeiro narcisismo, quando a criança toma a si mesma como objeto de amor, acredita na onipotência de seus sentimentos. Caracteriza-se pela total ausência de relações com o meio, por uma indiferenciação entre o Ego e o Id, tentando reproduzir a vida intra-uterina.

   No processo de diferenciação do Id para a formação do Ego, o narcisismo secundário designa o retorno ao Ego da libido que era investida dos objetos. Ou seja, o sujeito direciona para si o prazer que sentia nas relações com os objetos (por exemplo, pessoas, que o narcisista considera que devam existir somente para a satisfação das necessidades dele).

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Escrito por Denise M. Perissini

Psicóloga clínica e jurídica CRP 06/38483. Coordenadora da Pós Graduação em Psicologia Jurídica na UNISA Autora de livros e artigos de Psic.Juríd. de Família.

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