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Reconexão com a Ancestralidade

Existe uma falta, um vazio que não conseguimos entender ou localizar.

Reconexão com a Ancestralidade
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Recentemente li O Espírito da Intimidade, de Sobonfu Somé. Sobonfu era uma mulher africana membro da Tribo Dagara, da África do Oeste, criada em Burkina Faso e nesse livro ela nos ensina lindamente, sobre a ancestralidade africana e maneiras de se relacionar.

O livro conta com capítulos que vão crescendo na emoção e na reconexão com formas que nossa ancestralidade utilizava.

Não acredito que haverá uma reconexão total e absoluta com costumes ancestrais africanos, porque somos forçados a uma educação eurocentrada onde parte-se do principio que toda cultura do mundo tem origem na Europa.

Uma educação ocidentalizada, onde nossos ancestrais, vindos escravizados da África, foram obrigados a esquecer costumes, nomes, países, religiões e todo e qualquer hábito que pudesse atrapalhar o projeto de escravização desumano, cruel que ocorreu durante quatrocentos anos.

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A comunidade é o espírito

O Espirito da Intimidade conta como se desenvolvia a cultura na Tribo Dagara, onde todos os seus membros recebiam a atenção de todos. Todos eram importantes.

E como a autoridade dos anciãos era importante e levada em consideração, esses eram ouvidos quando haviam questões importantes a serem decididas como, por exemplo, o casamento.

A comunidade é o espírito; é onde as pessoas se reúnem para realizar um objetivo específico, para ajudar os outros a realizarem seus propósitos e para cuidar umas das outras. O objetivo da comunidade é assegurar que cada membro seja ouvido e consiga contribuir com os dons que trouxe ao mundo, da forma apropriada. Sem essa doação, a comunidade morre. E sem a comunidade, o indivíduo fica sem um espaço para contribuir. A comunidade é uma base na qual as pessoas vão compartilhar seus dons e recebem dádivas dos outros.

Sobonfu Somé

Um cuidando do outro, respeitando cada um individualmente e ajuda mútua para que cada membro realize o seu propósito, receba e doe cuidado.

Quando fomos escravizados toda essa cultura potente se perdeu e, felizmente, agora temos acontecendo a reconexão através de obras importantes, baseadas em pesquisas profundas e cuidadosas.

Compreendi com a leitura de O Espirito da Intimidade que podemos, embora situados em outro continente, aprender sobre nossa ancestralidade e na medida do possível, retomar alguns hábitos que nos ajudarão a entender como nos sentimos e porque.

Existe uma falta, um vazio que não conseguimos entender ou localizar. Como o que chamamos de intuição pode ter a ver com espiritualidade ancestral e que a África pode e deve estar presente em nossa vida aqui, tão distante do continente ancestral.

O poder da ancestralidade

A importância dos rituais é o ponto alto dessa obra, porque embora os costumes da aldeia sejam explicados tão lindamente, fica claro que não conseguiremos retomar totalmente a cultura.

Mas o ritual é uma prática que podemos estabelecer em nossas vidas, para todos os momentos, difíceis ou não. Podemos fazer um ritual quando e da forma que quisermos. Sempre.

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Muitos comportamentos que temos são ritualísticos. Nos casamentos, nascimentos, mortes, nas alegrias, nas tristezas… na vida. Viver é um ritual.

Acordamos, levantamos, tomamos café ou não. Vamos trabalhar em casa ou fora de casa. Não trabalhar, estar de férias. Tudo é ritual.

Mas, quando tomamos um tempo para por atenção em especificar o ritual e como ele deverá ser, a coisa toma corpo e pode ser uma boa forma de reconexão com sentimentos perdidos, para tomar decisões que precisam ser pensadas ou para apenas auxiliar a relaxar, algo que tem sido difícil para todos nos últimos tempos.

Gostaríamos de ganhar um livro secreto de receitas de rituais. Desse modo, se tivéssemos uma dor de dente, poderíamos ler a página 129, parágrafo 2, e tudo ficaria resolvido, Mas, na verdade, nós somos a página 129, parágrafo 2! O que estou dizendo é que você deve acreditar em si mesmo, acreditar em sua habilidade de ouvir. Diga apenas: “sei que essas coisas existem em algum lugar dentro de mim.

Sobonfu Somé

Se lembrarmos de nossos pais, dos avós, das bisavós, enfim das pessoas mais antigas de nossas famílias, com certeza lembraremos de algum ritual que tenham nos ensinado ou que praticavam normalmente, apenas nos dizendo para que serviam.

Meu avô fazia para mim e minhas irmãs quando éramos pequenas e estávamos na casa dele, um banho de defesa. Ele dizia que era para proteção. Eu sempre acreditei nisso e sinto não ter pedido a ele a receita do banho.

Todos nós temos essa memória de algum ritual. Temos nossos rituais. É só prestar atenção e por em prática.

Nossa força & nossa comunidade

Sobonfu Somé nos ensina como sua comunidade se constituía e como cuidavam uns dos outros. Cada pessoa era considerada, ouvida e auxiliada a realizar seu propósito.

A comunidade era o espírito que regia as vidas das pessoas e o ritual auxiliava na reunião de energias e na decisão de objetivos.

Acredito que podemos nos aproximar o máximo da nossa cultura ancestral através do conhecimento de hábitos revelados tão delicadamente como o fez a escritora.

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Estabelecendo nossos rituais e marcando como eles nos ajudarão a ter uma vida mais conectada conosco, com nossa força, com nossos sentimentos e desejos, com o nossa família, amigos e comunidade. Isso tudo através do conhecimento da força de nossa ancestralidade.

Livro: O Espírito da Intimidade – Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar – Sobonfu Somé

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Escrito por Eneida de Paula

Psicóloga Clínica CRP 06/135390 com especialização em Psicologia e Relações Raciais pelo AMMA Psique e Negritude. Interesse pelas relações raciais e como o sofrimento apresentado em consequência do racismo atravessa o indivíduo e o afeta somaticamente, e na necessidade de haver, por parte do profissional psicólogo empatia e recursos para atender essa demanda.

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