in

Você já ouviu falar em Plantão Psicológico?

Você já ouviu falar em Plantão Psicológico?
Pixabay

O Plantão Psicológico é uma vivência que proporciona ao psicólogo o exercício de empatia e a entender como esse atendimento pode aliviar urgências emocionais. É com certeza uma experiência profissional e humana, transformadora.

Tomei conhecimento da atividade do Plantão Psicológico em minha experiência como estudante do curso de psicologia. Era uma das áreas de escolhas antecipadas que deveria ser feita no 8º semestre do curso e seriam realizadas nos 9º e 10º semestres.

Preferi optar por esse estágio sabendo somente que o realizaria na clínica escola da faculdade. Entretanto, quando comecei a atuar, percebi como a atividade transcorria e sua importância na formação de um psicólogo.

Posteriormente, pesquisando a matéria localizei que no Brasil esse conceito clínico, existe há mais de trinta anos.

A concepção do conceito de plantão psicológico, coincide com a trajetória da psicóloga, mestra e doutora, Rachel Léa Rosenberg (1931/1987). Nasceu em 08/12/1931 em Etterbeek, Bélgica, naturalizada brasileira. Cursou psicologia na USP, onde desenvolveu sua carreira, fazendo a graduação, mestrado e doutorado.

Seus estudos orientados para a área da psicologia humanista centrada na pessoa, levam-na a criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico, que junta-se ao período inicial do reconhecimento da profissão de psicólogo, em um momento em que a psicologia brasileira buscava situar-se.

Foi no período da experiência no plantão psicológico que percebi a importância de um acolhimento de emergência. De como ele pode acontecer e resultar positivamente no auxilio do entendimento da urgência emocional que a pessoa traz.

Essa atividade, ocorre também em outras instituições, além do serviço escola de psicologia. No caso da faculdade de psicologia, não serão atendidas certas necessidades, como emergências psiquiátricas ou surtos psicóticos.

O que há é o encaminhamento dessas demandas para órgãos que possam atende-las. Habitualmente nesses locais existem indicações de hospitais e instituições que cobrem a necessidade de um atendimento médico ou internação.

A função do terapeuta no plantão psicológico é, principalmente, a escuta empática da demanda que o atendimento de urgência traz, sem contudo garantir alívio imediato daquela busca.

Em minha experiência como plantonista, pude observar que em muitos casos, a possibilidade de um momento de desabafo, causa certo desafogo de um desconforto emocional, como tristeza, luto, perdas materiais, qualquer motivo importante para a pessoa, eventualmente perdida em si mesma, possibilitando que o indivíduo olhe mais calmamente para si e aquela causa que o aflige.

O terapeuta do plantão psicológico deverá estar aberto e disposto a enfrentar o não planejado que vem do ser único que se apresenta em sua frente, escutar com calma e empatia, sem julgamentos, falar em um linguajar fácil que transmita boa e clara compreensão, procurando dessa forma atender a necessidade urgente daquele instante tão específico e único.

A pessoa que procura o atendimento do plantão psicológico está em sofrimento, angustiado por questões que o incapacitam de reconciliar-se com uma mente invadida por demandas tantas que podem nos atingir durante a vida, tais como escolhas profissionais, lidar com perdas de pessoas por motivo de morte, relacionamentos afetivos, orientação sexual, de gênero, alguma doença incapacitante ou terminal.

É também importante que o plantonista entenda as subjetividades da pessoa que esta a sua frente, observando sua cultura, religião, raça; familiares que afetam sua existência que eventualmente dificultem ou interfiram em suas escolhas e direcionamentos provocando angústias e incertezas.

Não é fácil conviver com padrões sociais, regras para se viver em sociedade como uma pessoa que segue a convenção estabelecida por diretrizes que por vezes não se consegue entender.

A pessoa que procura o plantão psicológico encontra no momento de sua necessidade urgente, possibilidade de receber escuta empática e auxilio para lidar com a angústia de não saber como atender algumas imposições de viver em sociedade.

Alem de ouvir com calma e interesse, ser amável e falar de forma clara e com isenção de preconceitos, o terapeuta não deverá imaginar uma patologia para aquela pessoa nem alguma definição psicológica, evitando dessa forma a contaminação de sua escuta.

No atendimento do plantão psicológico o terapeuta deve apontar ao paciente o sentido de sua fala, o que aparece quando ele relata sua angústia, o que o seu comportamento perante a vida transparece, ajudando-a entrar em contato, entender esse sentido e como se posiciona no mundo, apresentando uma perspectiva de mudança.

Para a implantação do atendimento de plantão psicológico deverá haver a sistematização do serviço. A instituição estabelecerá um horário para realização do plantão.

Não se exige nenhum perfil específico para que a pessoa seja atendida num serviço de plantão psicológico. O indivíduo pode ter uma questão angustiante que o mobilize muito ou pouco. Não importa. O principal é que o profissional esteja de prontidão e aberto para o acolhimento, para a escuta atenta e amorosa.

O tempo da sessão pode variar, por exemplo, de dez minutos a três horas, não entrará em questão. É a partir da escuta atenta que será entendida a necessidade apresentada pelo paciente.

Se um encaminhamento para psicoterapia mais longa, com potencial de auxiliar carências que eventualmente surjam a partir daquela fala; se há necessidade de serviço psiquiátrico ou apenas, se a pessoa precisava apenas um tempo ou alguém para desabafar angústias ou qualquer outro sentimento limitante, gerando desconforto emocional naquele período da vida.

A experiência de terapeuta atendente no plantão psicológico é trabalhosa, requer concentração absoluta do profissional, uma vez que a supervisão dos casos, só acontecerá após o atendimento, e por vezes essa assistência ocorrerá somente uma vez e nunca mais encontraremos com aquele sujeito. É um plantão.

Entretanto pode ser uma experiência profissional transformadora, enriquecedora, suporte para outros desafios e exercícios clínicos que a profissão de psicólogo nos apresenta.

Indicação de leitura

Reportar erro

Escrito por Eneida de Paula

Psicóloga Clínica CRP 06/135390 com especialização em Psicologia e Relações Raciais pelo AMMA Psique e Negritude. Interesse pelas relações raciais e como o sofrimento apresentado em consequência do racismo atravessa o indivíduo e o afeta somaticamente, e na necessidade de haver, por parte do profissional psicólogo empatia e recursos para atender essa demanda.

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…

0
MITOS FAMILIARES: o perigo dos segredos de família

Mitos Familiares: o perigo dos segredos de família

Terapia de casal

Quando devo procurar a terapia de casal?