Imagine que você está em um café, aparentemente tranquilo. Alguém na mesa ao lado começa a mastigar uma banana de forma ruidosa. Outro bate a caneta na mesa repetidamente. Um terceiro sopra o nariz com força. Para quem está por ali, esses sons passam despercebidos.
Mas para você, é como se estivessem cravando agulhas dentro do seu ouvido. O coração acelera, o corpo inteiro entra em alerta, a raiva sobe como uma maré incontrolável, e o seu único pensamento é: “eu preciso sair daqui agora.”
O que é misofonia e por que ela dói tanto?

Essa é a realidade de quem vive com misofonia – um transtorno neurosensorial invisível, frequentemente confundido com “frescura”, “intolerância” ou até “nervosismo demais”. Mas é algo profundo, visceral, real. Uma dor auditiva emocional que ninguém vê.
O som não machuca os ouvidos. Machuca por dentro. Por fora, a aparência é de impaciência. Por dentro, o cérebro dispara como se estivesse diante de uma ameaça.
Porque, de fato, é assim que ele entende o som gatilho: como uma ameaça real. Estudos recentes mostram que pessoas com misofonia têm uma hiperconectividade entre as áreas auditivas e emocionais do cérebro.
É como se a amígdala, centro das respostas de luta ou fuga, fosse ativada por um simples estalar de saliva, o clique de uma caneta, o barulho de alguém respirando. E quando isso acontece, é impossível “ignorar”.
Não dá pra fingir que não está acontecendo. O corpo inteiro reage, mesmo que a mente saiba que aquilo “não faz sentido”.
E talvez seja essa a parte mais cruel da misofonia: ela não tem corpo, não tem ferida, não aparece em exames. E por isso não é validada. Quem sente, sofre calado. E quem vê, julga.
Quantas vezes você já ouviu “nossa, para com isso, é só um barulhinho!” ou “você precisa aprender a conviver com as pessoas”. Mas como se convive com um gatilho que desorganiza o sistema nervoso inteiro? Eu convivo com misofonia desde muito nova, mas só fui entender o nome disso depois de adulta.
Lembro que, na adolescência, já odiava profundamente sentar à mesa com meus irmãos. Não era birra, não era raiva deles — era o som. O som da mastigação. O barulho da colher raspando o prato. A respiração alta. Tudo isso me fazia querer fugir.
E, por dentro, crescia um medo real de perder o controle, de explodir. Eu preferia não lanchar no trabalho a dividir o ambiente com uma colega que eu gostava, mas que comia banana do meu lado. Era insuportável.
Quando finalmente decidi procurar ajuda, na primeira tentativa com um psicólogo, ele passou a explorar possíveis traumas familiares, tentando entender de onde vinha “tanto ódio” do convívio à mesa.
Mas eu sabia que não era isso. Não era uma lembrança ruim, não era mágoa. Era o som. O som me invadia como se estivesse me agredindo. E ninguém conseguia entender.
Com o tempo, desenvolvi uma série de estratégias para sobreviver: ver vídeos sempre no mudo, tirar todos os sons do meu celular, evitar locais públicos, mudar de calçada quando vejo alguém mascando chiclete, recusar convites sociais.
Mas quanto mais me afasto dos gatilhos, mais sensível fico. E quando uso o abafador, o som abafado que chega parece ainda mais irritante do que o som original. A luta é constante.
Certa vez, fiz uma viagem de quarenta minutos ao lado de um jovem que mascava chiclete. Dez anos se passaram, e eu ainda lembro da tortura sonora que foi. E não, não é exagero.
A memória do sofrimento ficou gravada como uma situação de pânico. Hoje, mesmo com mais compreensão sobre mim mesma, ainda é difícil. Não suporto som de vídeo alheio em ambientes públicos.
O cansaço de existir em um mundo barulhento

Quando o som “vaza” de um fone de ouvido, minha concentração desaparece por completo. Não consigo mais fazer nada. Meu cérebro gruda no som. Fico presa, paralisada, irritada. Qualquer tentativa de foco se dissolve.
Há também outros gatilhos que me afetam: som de carros acelerando sem necessidade, motos ligadas enquanto paradas, chiado de microfone em palestras, o som do fogão de indução.
Tudo isso vai minando minha energia, minha vontade de sair de casa. A dificuldade natural de manter o foco se junta ao bombardeio sonoro, e de repente não consigo fazer nada além de querer fugir. Fico exausta, esgotada, emocionalmente drenada.
A misofonia é uma forma de viver em estado de guerra invisível. Um campo minado sonoro, onde qualquer som pode ser o próximo estopim. E o pior: o mundo segue funcionando como se nada estivesse acontecendo.
As pessoas mastigam, arrastam cadeiras, tocam músicas no alto-falante. E você, ali, tentando não chorar, não gritar, não explodir. Ou explode. E se culpa. A terapia, quando bem conduzida, tem sido essencial nesse caminho.
Não para “curar” a misofonia, porque não se trata de eliminar um sintoma com mágica. Mas para aprender a se proteger sem se punir. Para validar minha dor, entender meus limites, negociar com o mundo ao redor.
Descobri que posso falar sobre isso sem vergonha. Que posso dizer: “esse som me incomoda, você pode me ajudar com isso?”. Aprendi a regular minha resposta emocional antes que ela me devore. E, mais importante, aprendi a não me culpar tanto por sentir o que sinto.
Ainda é difícil. Enquanto digito este texto, um funcionário da companhia elétrica do outro lado da rua levanta uma escada de alumínio. Um vizinho lava o carro com lavadora de alta pressão.
Uma mobilete acelera no bairro vizinho. E tudo isso chega aos meus ouvidos como uma orquestra de tortura. Eu queria estar concentrada apenas em escrever, mas meu cérebro não permite. Ele dispara. Ele grita. Ele tenta fugir. E eu fico tentando me manter aqui.
Terapia não é cura, é proteção
Talvez o maior desafio da misofonia não seja o som. Mas o silêncio das pessoas que não querem entender. A ausência de empatia. A invalidação constante.
Quantas vezes alguém já debochou, riu ou ignorou seu sofrimento só porque “não é nada demais”? Misofonia não é frescura. Não é falta de educação. É um transtorno real. Neurológico. Sensorial.
E devastador quando vivido sozinho. Por isso, escrevo este texto como um grito de quem deseja silêncio — mas também deseja respeito. Empatia. Informação.
Que a gente possa falar sobre misofonia como falamos de enxaqueca, de rinite, de TDAH. Que ela seja reconhecida, nomeada, tratada com a dignidade que merece. Se você vive com misofonia, saiba: você não é estranho. Você não é fraco. Você não está só.
E não precisa se calar diante da dor. Se você convive com alguém que tem misofonia, lembre-se: pequenos gestos fazem toda a diferença.
Às vezes, baixar o som, trocar o lugar, usar fone de ouvido, evitar um barulho repetitivo, ou apenas compreender quando a pessoa desejar se afastar… tudo isso pode ser um ato de amor.
Porque no fim das contas, o que mais desejamos não é que o mundo pare de fazer barulho. É que ele aprenda a escutar.
Referências
Vidal, C. E. L. (2017). Misofonia: características clínicas e relato de caso. JBPSIQ — Revista Brasileira de Psiquiatria, 6(1). Recuperado de https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/v4BMFz6hqgDkZ6tsb7gkrGz/?format=html&lang=pt
“Misofonia causa sofrimento por exposição a sons, mas pode ser tratada”. (23 de julho de 2021). Jornal USP. Recuperado de https://jornal.usp.br/atualidades/misofonia-causa-sofrimento-por-exposicao-a-sons-e-pode-ser-tratada/ Jornal da USP
Martins, A. (2016). Misofonia: Quando o som não embala mas abala. Revista ou artigo disponível na UFBA. Recuperado de https://periodicos.ufba.br/index.php/cmbio/article/view/18198?utm_source


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