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A criança surda: relações delicadas em família

A criança surda: relações delicadas em família. Os pais têm dificuldade de elaborar o “luto” pela criança idealizada.

A criança surda: relações delicadas em família
Reprodução

“Não há língua definitiva e inalteravelmente formada. Todas se formam, reformam e transformam continuamente.”

Rui Barbosa

O diagnóstico de surdez na família provoca uma situação de crise, os pais têm dificuldade de elaborar o “luto” pela criança idealizada, e sofrem pressões no ambiente familiar e da própria sociedade que não lida adequadamente com as diferenças.

Os pais passam por uma redefinição de papeis e mudanças, conforme suas reações frente ao diagnóstico e os conhecimentos que tenham acerca do tema da surdez.

Diversos autores mencionam ser o diagnóstico da surdez um “golpe pessoal”, no qual os pais tentam buscar uma “causa” para a deficiência auditiva.

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Alguns pais chegam a acusar-se mutuamente, e podem ter conflitos conjugais por causa da situação.

Quando a família ouvinte percebe que terá um filho surdo, começam a aparecer diversos conflitos, pois sempre há a expectativa de que a criança consiga ouvir e falar, para que os pais possam transmitir-lhe os ensinamentos, cultura, valores, informações e conhecimentos.

Os pais ouvintes precisam saber lidar com a frustração e decepção de não terem o “filho idealizado” que tanto sonharam…

Nesse sentido, vamos ver as duas concepções opostas de surdez, concebidas pela literatura, conforme descreve SKLIAR (1997):

• Na primeira, conhecida como clínico-terapêutica, a surdez é vista como doença/déficit e o surdo como deficiente auditivo.

Sendo assim, a pessoa surda necessita de um trabalho para suprir ou sanar essa falta e assim ser “curada”.

A “cura” está relacionada ao aprendizado da linguagem oral, ficando implícito que, quanto melhor a sua fala, melhor terá sido o processo de reabilitação da criança surda, o que pressupõe o uso de aparelho de amplificação sonora e estimulação auditiva, por meio de treinamento auditivo e de fala.

• Na segunda concepção, conhecida como sócio-antropológica, o termo “surdo” refere-se a qualquer pessoa que não escute, independentemente do grau da perda.

A surdez é concebida como diferença e os surdos como “diferentes” dos ouvintes, sendo esta diferença decorrente, principalmente, da forma como os surdos têm acesso ao mundo, por meio da visão.

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Além do impacto emocional e das crises familiares decorrentes do diagnóstico da surdez na família de ouvintes, é importante considerarmos quais as atitudes e qualidade das relações que possam ocorrer nos momentos posteriores ao diagnóstico (conforme a concepção que tenha da surdez), ou após o episódio causador da surdez, para que os profissionais de Saúde e Educação possam orientar e assessorar esta família adequadamente.

Mas, segundo NEGRELLI e MARCON (2006), para que isto ocorra faz-se necessário o estabelecimento de uma interação efetiva, mediante um diagnóstico precoce e correto da surdez e consequentemente da adoção, o mais cedo possível, de um adequado processo de comunicação entre a família e a criança surda.

A principal dificuldade de interação familiar entre pais ouvintes e criança surda se refere à comunicação.

BRITO e DESSEN (1999, cit.) mencionam autores que afirmam que as interações entre mães ouvintes e crianças surdas diminuem, em relação às interações entre mães ouvintes com filhos ouvintes, ou de mães surdas com filhos ouvintes, nas mesmas faixas etárias das crianças.

Porém, sabe-se que a capacidade da criança em receber mensagens não depende somente de suas habilidades receptivas, mas também da habilidade materna em transmiti-las, daí a importância da escolha e qualidade de comunicação para o relacionamento mãe-criança.

Pois esta será determinante para o maior ou menor enriquecimento da comunicação e da interação da criança surda com os familiares, amigos e professores, ao longo de todo o desenvolvimento.

Outro aspecto importante apontado por NEGRELLI e MARCON (2006, cit.), é que, mesmo quando toda a família manifeste interesse e esforço por aprender a se comunicar adequadamente com o filho surdo.

Esse esforço não costuma ocorrer em todos os membros da família, sendo que, geralmente esse encargo fica para as mães, inclusive no sentido de aprenderem a Língua de Sinais.

Nesse sentido, as referidas autoras (NEGRELLI e MARCON, 2006, cit.) mencionam pesquisas que revelam a angústia das mães quando não conseguem compreender o filho surdo, principalmente quando são muito pequenos, e que expressaram um desejo muito grande de que o filho pudesse falar, o que é entendido como um desejo interno de proteger seus filhos das dificuldades de comunicação com outras pessoas, principalmente quando as mães não estivessem por perto.

Por vezes, a aprendizagem da língua de sinais é vista com muita dificuldade por parte dos pais, especialmente quanto à articulação e à rapidez das mãos.

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BRITO e DESSEN (1999, cit.) mencionam também que as restrições de comunicação e linguagem entre pais ouvintes e filhos surdos se referem aos estereótipos sociais da pessoa surda, a quem se atribuem traços de pensamento concreto, elaboração conceitual rudimentar, baixa sociabilidade, rigidez, imaturidade emocional, inabilidade para iniciar e manter relações, e para satisfazer as necessidades das outras pessoas. Por vezes, os pais, temendo situações sociais vexatórias, evitam sair com seus filhos surdos a locais públicos, temendo que o barulho da sonorização incontrolada deles incomode as pessoas.

Além disto, o isolamento social da criança surda pode acarretar problemas de comportamento.

NEGRELLI e MARCON (2006, cit.) mencionam pesquisas que apontam que a presença de uma criança surda na família afeta também as atividades de lazer e interação social, constatando-se que as famílias de crianças surdas preferem ficar em casa assistindo televisão, e que seus contatos sociais, se existirem, restringem-se às interações familiares, tendo uma reduzida participação na vida comunitária.

BRITO e DESSEN (1999, cit.) apontam estudos que correlacionam a surdez com a hiperatividade ou agressividade.

Outros estudos mencionados pelas autoras apontam redução na autoestima de crianças surdas filhas de pais ouvintes, em relação a seus pares filhos de pais surdos.

Isso porque, conforme PERES (2000), a surdez é, provavelmente, a deficiência que mais produz danos no desenvolvimento de uma pessoa, pois a fala e a audição são importantíssimas para a aprendizagem, as interações sociais e a expressão de sentimentos e pensamentos – além de consolidar o sentimento de segurança que cada sujeito tem em relação a si mesmo.

Além disso, conforme STELLING (1999, apud NEGRELLI e MARCON, 2006, cit.), a forma como a pessoa surda é tratada em casa irá determinar a imagem que ela terá de si mesma, porque é na família que muitos valores, crenças e costumes são transmitidos de geração para geração, por meio da linguagem.

Os problemas de comportamento da criança surda se referem também às dificuldades dos pais em estabelecer limites, seja por insuficiência de comunicação entre pais ouvintes e filho surdo, seja pela impaciência dos pais, ou mesmo por dificuldades de aceitar a surdez, ou ainda por quererem “compensá-lo” de alguma forma por causa da surdez, os pais permitem que a criança surda “faça tudo o que quer”, então esses pais preferem não estabelecer limites, formando filhos desobedientes.

É a partir dessa situação que se forma o estereótipo social de que os surdos em geral, sobretudo as crianças, são agressivos ou indiferentes às regras (CASTRO, 1999, apud NEGRELLI e MARCON, 2006, cit.).

A resistência da família ouvinte pode fazer com que sejam criados sinais “caseiros” ou mímica, não sendo considerados uma linguagem no sentido formal porque ficam restritos ao ambiente doméstico, o que, na realidade, constitui um sinal de rejeição à condição da surdez, gerando conflitos emocionais no filho surdo.

Além disso, a falta de comunicação também ocasiona dificuldades em compreender as necessidades do filho, bem como problemas na socialização da criança, levando, por vezes, ao surgimento de comportamentos agressivos; do mesmo modo, gerará na criança surda um pensamento apenas concreto, conceitos rudimentares, baixa sociabilidade, além de rigidez e imaturidade emocional (OLIVEIRA et al., 2004).

POWELL et al. (1992, apud OLIVEIRA et al., 2004, cit.) mencionam também o papel da religião no processo de elaboração, positiva ou negativa, da situação de deficiência na família: tanto no sentido de revolta (em frases como: “por que Deus fez isso comigo?”), como se comparasse a deficiência do filho a um “castigo divino”, como de aceitação e enfrentamento das dificuldades decorrentes da deficiência do filho surdo (em frases como “Deus me ajuda a superar”).

OLIVEIRA et al. (2004, cit.) também apontam pesquisas que afirmam que o nível socioeconômico influencia nas relações familiares e na interação com o filho surdo: quanto mais baixo o nível econômico da família, aumenta a sobrecarga de responsabilidades e encargos extras, sobretudo para as mães, que muitas vezes deixam de trabalhar para cuidar do filho deficiente, bem como menor é o acesso dessas famílias aos serviços de Saúde e Educação disponíveis.

Por fim, NEGRELLI e MARCON (2006, cit.) enfatizam que a criança surda deve receber a estimulação pela Língua de Sinais o mais cedo possível, por ser esta a língua natural (L1) do indivíduo surdo.

Quando os pais e a família demonstram sensibilidade em perceber isto, e decidem aprender a Língua de Sinais para facilitar a comunicação com seu filho surdo, a linguagem, o pensamento e demais processos cognitivos se desenvolvem sem prejuízos, e as crianças surdas se tornam mais felizes, confiantes, porque compreendem o mundo e são compreendidos.

As autoras concluem que a comunicação exerce papel fundamental para a vida de qualquer indivíduo, e mais especificamente para o surdo, proporcionando a este, além do desenvolvimento cultural, o delineamento de sua identidade própria.

OLIVEIRA et al. (2004, cit.) acrescentam que a escola se torna um importante facilitador no enfrentamento das dificuldades de comunicação da família ouvinte com o filho surdo, pois é lá que as famílias podem aprender LIBRAS, e as crianças, se tiverem contato com outras crianças e adultos surdos, poderão desenvolver a socialização com seus pares, além da aquisição da Língua de Sinais como língua natural.

Os profissionais de Saúde e Educação que atendem tais pais precisam conhecer os sentimentos que permeiam aquela dinâmica familiar, proporcionar oportunidades para que esses pais possam ser ouvidos e expressarem suas angústias, medos, raiva, culpa, inseguranças, indecisão, conformismo, fragilidades ou acolhimento do filho surdo na família.

As representações que os pais fazem da criança surda influenciará em seu desenvolvimento, na qualidade das relações familiares, na estruturação da linguagem e da comunicação,.

Por isso, poderá fornecer informações importantes para que os profissionais possam elaborar as orientações e conduzir os processos terapêuticos e pedagógicos, tanto individuais como em grupos de incentivo e apoio.

Referências bibliográficas:

BRITO, A.M.W.; DESSEN, M.A. Crianças surdas e suas famílias: um panorama geral. Psicologia: Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v.12, n.2, 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79721999000200012&lng=en&nrm=iso&tlng=pt.

NEGRELLI, M.E.D.; MARCON, S.S. Família e criança surda. Ciência, Cuidado e Saúde, Maringá (PR), v.5, n.1, p.98-107, jan./abr. 2006. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/CiencCuidSaude/article/view/5146/3332.

OLIVEIRA, R.G.; SIMIONATO, M.A.W.; NEGRELLI, M.E.D.; MARCON, S.S. A experiência de famílias no convívio com a criança surda. Acta Scientiarum. Health Sciences. Maringá, v. 26, n. 1, p.183-191, 2004. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/244948320_A_experiencia_de_familias_no_convivio_com_a_crianca_surda_-_DOI_104025actascihealthsciv26i11658/link/55a4fb7608ae5e82ab1f72e1/download.

PERES, R.S. Aspectos da autoimagem em crianças portadoras de surdez. Psicologia: Discência & Pesquisa. Revista de Iniciação Científica. Disponível em: http://www.assis.unesp.br/revistadiscenciapesquisa/docs/PeresRS_2.pdf, n.2, dez. 2000. Acesso em 06 dez. 2011.

SKLIAR, C. (org.). A surdez: um olhar sobre as diferenças. 5. ed. Porto Alegre: Mediação, 2011.

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Escrito por Denise M. Perissini

Psicóloga clínica e jurídica CRP 06/38483. Coordenadora da Pós Graduação em Psicologia Jurídica na UNISA Autora de livros e artigos de Psic.Juríd. de Família.

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