Nem sempre o amor segue o que seria previsível. Na prática clínica é comum observar um padrão curioso: pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) frequentemente estão em relações amorosas ou de amizade profundas com pessoas diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
À primeira vista, parece uma contradição. Um vive em busca de previsibilidade, rotina e clareza. O outro se move em impulsos, hiperfoco e dispersão.
Mas na vida real — aquela que não está nos manuais — há um elo que conecta essas diferenças de forma intensa, desafiadora e, muitas vezes, surpreendentemente funcional.
Dois modos distintos de perceber o mundo
Em termos clínicos, é importante compreender que estamos falando de duas neurodivergências que afetam diretamente a forma como o mundo é percebido, processado e respondido.
No autismo, especialmente nos níveis 1 e 2 de suporte, é comum que a pessoa tenha um funcionamento verbal preservado, mas com dificuldades marcadas na compreensão social, na flexibilidade cognitiva e na regulação sensorial. Já no TDAH, a impulsividade, a desorganização, a procrastinação e a oscilação de humor são características que impactam diretamente a dinâmica da vida cotidiana e das relações.
Então, como é possível que dois mundos tão distintos se tornem tão próximos? Muitas vezes, a resposta está em um tipo de complementaridade inconsciente que se estabelece.

A pessoa com autismo costuma funcionar com estruturas claras, padrões definidos, fala direta. Para alguém com TDAH, isso pode ser um respiro diante do caos interno — finalmente alguém que diz o que quer, do jeito que quer, sem subtexto, sem meias palavras.
Já a pessoa autista pode se sentir estimulada e puxada à ação pelo ritmo e energia do parceiro com TDAH, ganhando contato com a espontaneidade e uma quebra — muitas vezes necessária — das rigidezes internas.
Mas não se trata de romantizar. É uma relação de construção contínua. O que no início parece encantador — “ele me entende mesmo quando eu me fecho” ou “ela me organiza, me estrutura” — com o tempo pode se tornar um campo de atrito. A desatenção pode ser lida como desinteresse.
A necessidade de rotina pode parecer rigidez. A impulsividade pode soar como irresponsabilidade. A literalidade pode ser vista como frieza. Se não há consciência da neurodivergência mútua, é comum que cada um se sinta inadequado ou cobrado por um ideal de relacionamento neurotípico que não se encaixa na vivência real de nenhum dos dois.
Do encanto ao atrito: quando as diferenças pesam
Na prática clínica, vejo frequentemente casais que vivem esse ciclo: conexão profunda, sensação de encaixe fora do padrão, seguida de frustração e cobrança. A pessoa com TDAH, por exemplo, pode se encantar com a constância emocional do parceiro autista, mas também se frustrar com o que sente como “falta de reação” ou “distanciamento”.
Enquanto isso, o parceiro com TEA pode inicialmente se sentir estimulado pela energia da outra pessoa, mas depois se desorganizar emocionalmente com a imprevisibilidade do outro.
Muitas vezes, é aí que surgem os conflitos, porque os dois não sabem que estão, de fato, falando línguas diferentes — e que essa diferença é neurológica, não pessoal.
É aqui que o diagnóstico — ainda que tardio — pode funcionar como um divisor de águas. Quando ambos os parceiros compreendem sua neurodivergência, nasce a chance de construir um vocabulário comum.
Não mais esperando que o outro aja como você espera, mas reconhecendo o que é possível dentro do funcionamento de cada um.
Diferentes juntos
Essa tomada de consciência permite estratégias práticas, como o uso de agendas compartilhadas, acordos explícitos sobre tarefas domésticas, momentos de pausa planejados, e até códigos de comunicação para indicar sobrecarga ou necessidade de espaço.
Um ponto essencial está no suporte emocional. Pessoas com autismo, especialmente nas relações amorosas, podem ter dificuldades em interpretar pistas sociais sutis, o que leva a ruídos de comunicação.
Para o parceiro com TDAH, que muitas vezes verbaliza afeto de forma intensa e caótica, essa falta de “leitura” pode ser dolorosa. É comum ouvir: “mas eu demonstrei, ela não percebeu?”.

E o oposto também é verdadeiro: o autista que diz “eu mostrei, era óbvio” e o TDAH que não captou. Essa assimetria precisa ser nomeada para que a relação não seja lida como negligente ou fria, quando é apenas um desencontro de códigos.
O impacto emocional também é significativo. Muitos pacientes com TDAH carregam uma autoestima frágil, após anos ouvindo que são “bagunceiros”, “esquecidos” ou “irresponsáveis”.
Já os autistas muitas vezes chegam à vida adulta com uma história de exclusão social e sensação de inadequação. Quando esses dois mundos se encontram, pode surgir um acolhimento único, onde um reconhece no outro a dor de não ter sido compreendido. Isso cria vínculos afetivos potentes.
Mas, se esse afeto não vem acompanhado de limites e estratégias de regulação, o risco é que um acabe tentando “consertar” o outro, ou ambos se percam em uma relação simbiótica que os isola ainda mais.
Amizades neurodivergentes: o mesmo ritmo, novos desafios
As amizades entre pessoas autistas e com TDAH seguem um caminho parecido. É comum que se estabeleçam vínculos profundos, baseados em interesses em comum ou no conforto de estar com alguém que não julga.
O silêncio confortável pode ser tão valioso quanto a conversa animada. O que assusta um neurotípico — o foco obsessivo em um tema ou a fala atropelada — para o outro é familiar.
Porém, também nesse campo surgem desafios: a pessoa com TDAH pode esquecer de responder mensagens, cancelar encontros de última hora, mudar de planos impulsivamente. Isso pode ser vivido pelo amigo autista como rejeição ou quebra de confiança.
E o contrário também acontece: o autista pode insistir em seguir uma rotina rígida que frustra o outro, ou parecer inflexível em situações que exigem adaptação.
Psicoeducação e terapia: construindo pontes
É por isso que a psicoeducação e o acompanhamento terapêutico são fundamentais para esses vínculos. Quando os dois se conhecem melhor, o afeto se torna mais possível. Não por milagre, mas por esforço conjunto.
Combinados simples — como dizer “não posso conversar agora, estou sobrecarregado”, ou “você pode repetir com mais calma?” — funcionam como pequenas pontes que evitam grandes rompimentos.
Com o tempo, o casal ou os amigos criam uma coreografia própria, onde o que parecia ruído vira ritmo. Ainda que diferente do convencional.
Do ponto de vista das pesquisas, a associação entre TDAH e TEA tem sido amplamente estudada. Sabe-se hoje que há uma sobreposição genética e neurológica entre os dois transtornos.
Segundo estudos como os de Leitner (2014), apontam uma sobreposição relevante de traços e diagnósticos entre TEA e TDAH, com taxas variando conforme a amostra e os critérios utilizados. Isso ajuda a entender por que se reconhecem tanto.
O mundo os interpreta como “exagerados” ou “desconectados”, quando na verdade seus cérebros apenas processam estímulos de maneira diferente. Quando se encontram, essa diferença pode se tornar familiar.
Amor não basta: é preciso tradução
Alguns estudos e relatos clínicos sugerem que, em certos casos, relações entre pessoas neurodivergentes podem favorecer sensação de compreensão mútua — desde que haja estratégias e acordos claros .
Mas para isso acontecer, é preciso mais do que amor: é preciso tradução.
Tradução dos silêncios, das ausências, das repetições. Tradução dos jeitos de demonstrar carinho — que às vezes não vêm em palavras, mas em atos.

Que às vezes não vêm em tempo real, mas no hiperfoco de dias depois. Que às vezes são incômodos — como a necessidade de falar sobre o mesmo assunto várias vezes — mas também são beleza — como o acolhimento silencioso de alguém que entende que você só está cansado, e não chato.
Na prática, essas relações funcionam como pequenas oficinas terapêuticas. Onde se aprende a nomear, a negociar, a respeitar e a regular. Não porque são perfeitas, mas justamente porque não são.
É no atrito das diferenças que o vínculo se fortalece — desde que haja cuidado para não confundir intensidade com saúde. É preciso reconhecer quando a relação está adoecida, quando a sobrecarga se torna crônica, quando a culpa toma o lugar do afeto.
E, nesses momentos, buscar suporte externo não é fraqueza — é sabedoria.
Talvez seja por isso que muitos dos meus pacientes com TEA dizem que só se sentiram amados de verdade por alguém com TDAH. E vice-versa.
Porque no meio de tantas tentativas frustradas, foi justamente ali que alguém disse: “você é diferente, mas eu também sou. Vamos ser diferentes juntos?”
E às vezes, isso é tudo o que a gente precisa para começar.
Referências
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MCLEOD, S. Understanding the autistic-ADHD friendship dynamic. Simply Psychology, 2023. Disponível em:
https://www.simplypsychology.org/autism-adhd-friendships.html.


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