Existe uma fase na vida da mulher sobre a qual ainda falamos muito pouco, inclusive dentro dos consultórios de psicologia: o climatério. Durante muito tempo, quando se falava em menopausa, a imagem que vinha à cabeça era a de uma mulher mais velha que parou de menstruar e começou a sentir calor.
Só que existe um caminho muito maior até chegar à menopausa, e esse caminho pode trazer mudanças físicas e emocionais importantes. Algumas mulheres começam a perceber essas mudanças anos antes da última menstruação, durante a chamada perimenopausa, e muitas delas não fazem ideia de que aquilo que estão sentindo pode ter alguma relação com essa fase da vida.
É justamente aí que mora uma questão importante para nós, psicólogos. Essa mulher não chega ao consultório dizendo: “Acho que estou entrando na perimenopausa”. Ela chega dizendo que está cansada, sem energia, irritada, chorando mais, dormindo mal, esquecendo coisas, tendo dificuldade para se concentrar e sem vontade de fazer coisas que antes fazia normalmente. Algumas dizem uma frase que considero muito significativa: “Eu não estou me reconhecendo”.
E, diante desse conjunto de sintomas, é muito fácil pensarmos em depressão, ansiedade ou burnout. E pode ser, claro. Uma mulher no climatério também pode ter depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno. Uma coisa não exclui a outra. O problema acontece quando olhamos apenas para o aspecto psicológico e esquecemos que existe um corpo passando por uma importante transição.
O climatério corresponde à transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva da mulher, enquanto a menopausa é um marco dentro desse processo. Antes dela, durante a perimenopausa, os hormônios podem sofrer oscilações que repercutem de diferentes maneiras no organismo.
Algumas mulheres apresentam alterações no sono, no humor, na memória, na concentração, na libido e na disposição. Também podem aparecer fogachos, suor noturno e mudanças no padrão menstrual. O mais complicado é que nem todas terão os mesmos sintomas, nem na mesma intensidade. Por isso, algumas passam bastante tempo tentando descobrir o que está acontecendo.
Existe ainda outro detalhe que comecei a observar com mais atenção: muitas vezes essa mulher já chega ao consultório com uma justificativa para estar daquele jeito. “Eu estava bem até mudar de setor na empresa.” “Eu comecei a ficar assim depois que troquei de emprego.” “Acho que é porque meu casamento não está muito bom.” “Estou trabalhando demais, devo estar com burnout.” Nós fazemos isso naturalmente.
Quando alguma coisa muda dentro de nós, procuramos alguma coisa fora que explique essa mudança. E essas situações realmente podem estar causando sofrimento. Não estou dizendo que o problema no trabalho, no casamento ou na família não tenha importância. O que estou dizendo é que nós, psicólogos, precisamos aprender a ouvir também nas entrelinhas.
Às vezes, a explicação que a paciente encontrou não parece suficiente para justificar a intensidade da mudança que ela está vivendo. Talvez seja interessante perguntar: “Além disso, o que mais mudou em você?”. Como está o sono? Como está a libido? Como está a memória? A menstruação continua igual? O ciclo ficou mais curto ou mais longo? O fluxo mudou? Apareceram ondas de calor? Ela acorda suada durante a noite? Sente que sua concentração piorou?
São perguntas simples, mas que podem nos mostrar que existe alguma coisa acontecendo além daquilo que inicialmente parecia ser apenas uma questão emocional.
Eu só fui compreender verdadeiramente a importância disso quando aconteceu comigo. Meu primeiro pensamento foi que eu estivesse passando por um burnout. Era a explicação que parecia fazer sentido naquele momento. Só que eu sentia que tinha alguma coisa diferente. O que eu sentia não era exatamente tristeza. Era um desânimo surreal, uma falta de energia e disposição que eu não conseguia explicar.
Eu procurava dentro da minha própria história alguma coisa que justificasse aquilo, mas não encontrava uma razão proporcional ao que estava sentindo. Foi justamente perceber essa diferença entre tristeza e aquele desânimo tão intenso que me fez buscar ajuda para além da psicologia e começar a investigar também o que estava acontecendo no meu corpo.
Depois disso, minha maneira de olhar para essa questão mudou. Comecei a pensar em quantas mulheres podem chegar aos consultórios psicológicos com sintomas que parecem depressivos sem que ninguém pergunte sobre o ciclo menstrual ou considere a possibilidade de que a transição hormonal esteja participando daquele quadro. Isso não significa dizer que “não é depressão, são hormônios”.
Essa afirmação seria tão perigosa quanto ignorar completamente os hormônios. A mulher pode estar deprimida e também estar no climatério. Uma alteração pode intensificar a outra. O que precisamos é ampliar nossa investigação e parar de tratar mente e corpo como se fossem duas coisas independentes.
E, pensando nisso, percebi que essa conversa não deveria começar apenas aos 40 ou 50 anos. O ciclo menstrual deveria ser uma informação considerada na clínica psicológica durante toda a vida reprodutiva da mulher. Imagine uma paciente que chega em uma sessão extremamente chorosa. Naquela semana, uma situação relativamente simples parece ter se tornado gigantesca. Ela está irritada, sensível, interpreta determinadas situações de maneira muito mais intensa e sente que não está conseguindo administrar as próprias emoções.
Quantas vezes perguntamos: “Em que fase do seu ciclo menstrual você está?”. Talvez ela esteja justamente no período pré-menstrual e exista um padrão de intensificação dos sintomas nessa fase.
Isso não significa olhar para ela e dizer: “Ah, então é só TPM”. Pelo contrário. Durante muito tempo essa frase foi usada justamente para desqualificar sentimentos femininos. A proposta aqui é outra. É levar o corpo feminino a sério. Se aquela mulher percebe que determinados sintomas aparecem ou pioram repetidamente em fases específicas do ciclo, essa informação é importante. Podemos ajudá-la a acompanhar esse padrão ao longo dos meses e, quando necessário, orientá-la a conversar com seu ginecologista ou outro médico que possa fazer uma avaliação adequada.
O que talvez não seja interessante é pegar uma emoção intensificada naquele momento e transformá-la imediatamente em uma conclusão sobre toda a vida daquela mulher.
Nós, psicólogos, não precisamos nos transformar em ginecologistas ou endocrinologistas. Não cabe a nós diagnosticar alterações hormonais, solicitar tratamentos ou interpretar uma dosagem hormonal isoladamente como se ela explicasse tudo. Nosso papel é conhecer suficientemente essas fases para perceber quando precisamos ampliar o cuidado e encaminhar a paciente para uma avaliação médica.
Na perimenopausa, inclusive, os níveis hormonais podem oscilar bastante, então a avaliação médica não depende simplesmente de olhar um único número em um exame. O profissional habilitado irá considerar sintomas, histórico, alterações menstruais, idade, condições clínicas e decidir quais investigações são necessárias.
Acredito muito que psicologia e medicina precisam conversar mais quando cuidamos de mulheres. Pense em uma paciente que começou a dormir mal por causa das mudanças do climatério. Depois de semanas dormindo mal, ela fica exausta. Exausta, começa a produzir menos no trabalho. Produzindo menos, começa a pensar que está incompetente. A autoestima diminui, a irritabilidade aumenta e ela deixa de fazer atividades que antes davam prazer. Quando chega ao consultório, temos diante de nós uma mulher dizendo que perdeu a alegria e a capacidade que tinha antes.
Onde termina o hormonal e começa o psicológico? Talvez essa nem seja a pergunta mais importante. Talvez a pergunta seja: como podemos cuidar dessa mulher por inteiro?
E quero falar diretamente com você, mulher, que está lendo este texto. Se você percebe que alguma coisa mudou, se sente que não é mais a mesma, se apareceu um desânimo que você não consegue explicar, observe também o seu corpo.
Observe seu ciclo menstrual, seu sono, sua energia, sua libido, sua memória e sua concentração. Se puder, anote essas mudanças durante alguns meses. Essas informações podem ser muito úteis para o psicólogo e para o médico que acompanham você. Não tente fechar sozinha um diagnóstico de depressão, burnout ou perimenopausa. Procure ajuda e conte exatamente o que está acontecendo.
E para nós, psicólogos, fica uma reflexão que hoje considero indispensável: talvez precisemos perguntar mais sobre o corpo das mulheres que escutamos. Não para explicar todo sofrimento feminino pelos hormônios, mas justamente para não cometer o erro contrário e transformar em psicológico tudo aquilo que chega ao consultório.
Às vezes, depois de ouvir uma longa história sobre cansaço, desânimo, irritabilidade, esquecimento e a sensação de não se reconhecer mais, uma das perguntas mais importantes que podemos fazer é também uma das mais simples: “Como está o seu ciclo menstrual?” Talvez essa pergunta não traga a resposta inteira, mas pode revelar uma parte da história que ninguém havia perguntado até então.
Referências
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