A atual realidade que se impôs a todos nós nos últimos meses, nos ensina dentre tantas outras coisas a conviver com elevado nível de estresse.

Primeiro que na verdade estamos todos conectados e influenciamos uns aos outros, e também que não temos o menor controle sobre nossa vida, visto que um ser invisível pode mudar tudo da noite para o dia (aliás, o que é noite e o que é dia em uma vida confinada), não é?

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E neste momento em que nossos vínculos foram abruptamente interrompidos, acabamos forçosamente tendo que “voltar para casa”, e encararmos algumas características desconhecidas nossas, além de reencontramos outras velhas conhecidas que agora se apresentam de forma mais exacerbada, seja entre quatro paredes, pelas redes sociais; estejamos só ou confinados em grupo.

Porém esta oportunidade não é verdade para uma parcela da sociedade que precisa cuidar daqueles que chegarem ao sistema de saúde.

Quem são e em que contexto eles atuam?

Hoje gostaria de voltar nosso olhar aos profissionais de primeira resposta: policiais, equipe de resgate médico de urgência, bombeiros e equipe de atendimento de urgências médicas, que estão na chamada linha de frente da batalha contra a COVID-19.

Sabemos que de longa data nosso sistema de saúde sempre fora precário desde a estrutura com hospitais caindo aos pedaços, falta de profissionais, de remédios, e tantos outros itens, imagine na situação atual, e toda a urgência/ emergência e gravidade que ela demanda.

É dentro destas condições que muitos destes profissionais estão expostos diariamente tendo que dar seu melhor para salvar vidas e ao mesmo tempo se protegerem para não serem contaminados.

Haja vista que o que pode acontecer com a vitima pode acontecer também com o referido profissional, quanto pessoa e enquanto cidadão que também é. Só que, além disso, recebe também uma carga extra de desgaste físico, mental e emocional, tanto pelos riscos que corre como pelo seu dever de oficio em lidar direta e continuamente com tais situações

(Faria, 2000, p.368-369).

Além disso, a situação em si demanda deles que sejam capazes de administrar seus próprios sentimentos e emoções, tornando-se receptores das emoções das pessoas envolvidas, sejam vítimas, reclamantes, parentes, pessoas próximas, sem que possa manifestar fragilidade.

Um dado da realidade que tenho recebido de entrevistas com estes profissionais versa sobre a quantidade de horas de trabalho realizadas, emendando plantões em diferentes instituições, públicas ou particulares, em virtude da demanda crescente a cada dia, onde novos hospitais são abertos.

E mesmo que não sejam contaminados, estão por períodos prolongados expostos a situações de vida e morte ou cenas impactantes a todo o momento, e que continuam a reverberar em suas almas mesmo quando estão em casa.

Por mais cotidianas que estas cenas possam parecer nunca deixam de ser traumáticas.

Aquele que trabalha em emergências é visto como um herói, mas na verdade sangra, e paga um preço alto por estar constantemente assombrado pelas situações extremas e que podem a gerar traumas que impactam seu aparelho psíquico.

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E estes traumas se estendem também a seus familiares ou aqueles amigos que tenham um relacionamento mais próximo com estes profissionais, impactados por estas experiências emocionais.

Rener (2010, p.32) os chama de “vítimas secundárias”, por serem os recursos pessoais próximos aos profissionais de primeira resposta, e que são procurados como forma de alcançar o restabelecimento de sua saúde mental, como seu suporte.

Os impactos sobre a saúde mental & estresse

A palavra “trauma” se origina do grego e significa ruptura causada por um agente externo. O aparelho psíquico do sujeito não é capaz de processar e elaborar o excesso do fluxo de excitações variadas e intensas demais.

É definido também como um evento marcante (pontual e progressivo) do passado, que se estende ao presente e futuro de forma devastadora.

O modo de processar ou elaborar emocionalmente as situações é determinante, tanto quanto a experiência traumática em si, visto que esta configuração e ser a responsável por levar fator gerador à lesão do trauma e, portanto, a abertura das defesas psíquicas do aparelho mental.

Traumas graves e prolongados acabam por diminuir a capacidade o cérebro de processar informações levando o individuo à dissociação, ao entorpecimento psíquico e bloqueio de sentimentos como forma de sobreviver.

O cérebro reduz sua capacidade de recepção ao conhecimento e, ao invés de acrescentar e armazenar, não codifica a informação associada ao trauma, formando o que Sant’Anna Filho (2015) chamada de bolha de trauma.

Dessa forma ele impede que memórias traumáticas possam ser acessadas e revividas.

Mesmo que o profissional de primeira resposta desenvolva uma “blindagem” para proteção do seu mundo privado como forma de desempenhar seu papel frente às situações traumáticas sob as quais esteja inserido, o alto e constante nível de angústia pode acabar desencadeando estas formações destas bolhas como forma de defesa da psique.

Dentre as consequências para os trabalhadores que experienciam essas situações traumáticas, estão o desajuste emocional, irritabilidade, hostilidade, episódios depressivos, transtornos cognitivos e de sono, alcoolismo crônico etc., que afetam sua saúde e seu rendimento laboral e, em casos extremos, levam ao suicídio.

(Olavo, 2017, p.94)

Estes profissionais, expostos constantemente a um evento estressor, demandam a todo instante de seus organismos a busca por sua homeostase interior, sendo esta uma resposta adaptativa própria ao ser humano, mas que exige um considerável desgaste e uso de energia física e mental.

Estresse não deve ser entendido como algo que esteja fora de nós, e sim, como uma resposta fisiológica que damos a um fator externo, resultando na secreção de três hormônios: adrenalina, noradrenalina e cortisol e ativação do sistema de defesa para momentos de perigo, sob a forma de ações de luta ou fuga, em detrimento da inibição do neocórtex com respostas mais elaboradas e ponderadas.

As consequências do estresse são conhecidas há muitos anos e chegaram a receber alguns nomes como “Síndrome do coração irritado” com sintomas de taquicardia, ansiedade e pânico, e na Segunda Guerra como “Fadiga de batalha”.

O Transtorno do estresse pós-traumático

Como diagnostico clinico de Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), apenas em 1980 quando entra no DSM-III, quando o trauma passou a fazer parte dos critérios.

“O TEPT caracteriza-se pelo surgimento de sintomas específicos após a exposição a um evento traumático, os quais compõem a seguinte tríade de dimensões psicopatológicas: (1) revivescência do trauma; (2) esquiva de estímulos que relembrem o evento traumático e distanciamento afetivo; e (3) hiperestimulação autonômica. “

(Olavo, 2017, p.36)

Além das características descritas acima, e para que seja dado este diagnostico é necessário que tenha transcorrido pelo menos um mês após a exposição ao evento traumático, podendo receber ainda um especificador de “com sintomas dissociativos”.

Em não havendo poderemos estar diante de um quadro de burnout decorrente do estresse profissional contínuo e/ou exaustão emocional.

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O diagnostico se torna difícil pela quantidade de elementos necessários para sua caracterização, mas algumas reações podem ser mais frequentes após um trauma, tais como: sensação de anestesiamento, ansiedade, culpa, irritabilidade, raiva, tristeza, negação, abuso de álcool ou drogas, arrepios, fadiga, insônia, alteração do apetite, transpiração intensa, tremores, confusão mental, pensamentos intrusivos, dificuldade de concentração e tomada de decisão, estreitamento perceptual, prejuízo do desempenho profissional, isolamento, perturbações familiares, dentre muitos outros.

Resiliência

O termo “resiliência” deriva de resilio que está relacionado ao conceito de resistência à pressão, ou seja, a capacidade de retornar ao formato original após um golpe, sem se deformar.

No plano mental, pessoas resilientes seriam aquelas capazes de vencer dificuldades, por mais traumáticas ou impactantes que possam ser.

Vimos acima que sob estresse alguns hormônios são secretados com o intuito de respondermos prontamente com ações ao evento estressor.

Uma outra consequência é que também ficamos com o sistema de percepção alterado.

Se perceber passa por nossa capacidade de darmos significado às sensações que captamos, juntando com nossas experiências anteriores e totalmente particulares, formando assim novos significados, é importante atentarmos como essa alteração da capacidade de percepção pode afetar aos profissionais da linha de frente no tocante de suas relações com as pessoas e o mundo que os cerca.

O estresse, o excesso de horas trabalhadas, o cansaço, algumas doenças físicas, uso de drogas e outras variáveis podem interferir neste processo de percepção, bem como o próprio estado psicológico de quem percebe.

“Neste particular aspecto, o estado psicológico presente constitui-se em um aspecto determinante na faculdade humana de interpretar, categorizar, significar e ressignificar o mundo que nos rodeia, ou seja, percebê-lo”.

(Olavo, 2017, p.41)

A capacidade de resiliência varia de individuo a individuo e tem relação direta com sua bagagem de vida, experiências, a criatividade e espontaneidade possíveis para criar repostas e ressignificar.

Ela pode ser entendida como um dos fatores que levam um individuo, ou não, ao adoecimento físico e mental.

Quem cuida precisa ser cuidado

Como vimos na construção deste artigo, as reações das pessoas expostas a situações de emergência podem variar muito por estarem constantemente enfrentando uma situação nova, muito dolorosa ou que ameaçam a sua integridade física e emocional, gerando o que é chamado de angústia pós-traumática.

Moreno já observava em estudos de sua época, que os indivíduos tomados pela surpresa se assustam e caem aturdidos, produzindo respostas falsas ou nenhuma resposta frente aos problemas que se apresentam.

“Não há nada para que os seres humanos estão mais mal preparados, ou o cérebro humano mais mal equipado, que a surpresa.”

(Moreno, 1975, p.97)

É sob estas condições também chamadas de “campo tenso”, permeadas por uma alta carga de estresse e que demanda uma alta capacidade de resiliência, que se encontram os profissionais de primeira resposta.

O nível de angústia continuará no crescente enquanto o de resposta cada vez mais comprometido pela diminuição do seu campo perceptual. Ou seja,a capacidade de análise e resposta deste profissional estarão comprometidas deixando ele direcionado apenas ao alcance de determinada meta, mas concomitantemente deixando de considerar outros fatores que o ajudariam a solucionar o problema, reagindo mal a ele e até mesmo não reagindo.

Como será dentro deste contexto em que vivem, ter quer dar respostas assertivas ao máximo, no curto espaço de tempo, mas beirando a estafa e a paralisia?

Espero que este artigo, a primeira de duas partes, tenha conseguido explicar um pouco dos impactos da exposição dos profissionais de primeira resposta a situações de urgência/ emergência a compreensão de que seu adoecimento impacta uma rede grande de pessoas com as quais ele se encontra, seja em sua rede de suporte (familiares e amigos), seja daqueles que entregam as vidas em suas mãos.

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E também que tenha conseguido despertar neles a necessidade para auto percepção de seus estados mentais, mesmo estando em meio a um turbilhão em que o tempo para si se torna escasso, mas que é necessário, pois pode significar ser parado pela mente e não pelo vírus.

Na segunda parte, falaremos sobre o psicodrama enquanto proposta de intervenção psicológica, trabalhando a angústia circunstancial vivida por estes profissionais no desempenho do seu papel dentro e a importância de ressignificar.

Até a próxima!

Referências Bibliográficas:

FARIA, D.G.R. (2000) O profissional de segurança pública. Desempenho de seu papel num cenário estressante de violência e de riscos: um estudo exploratório. Dissertação de mestrado, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Universidade de São Paulo, São Paulo.

MARTÍN, Eugenio Garrido. Psicologia do Encontro: J. L. Moreno. São Paulo: Ágora, 19996.

MORENO, J.L. Psicoterapia de grupo y psicodrama. Cidade do México, México: Fondo de Cultura Económica, 1975

MORENO, J.L. Psicodrama. São Paulo: Cutrix, 16ª edição 2012.

PERES, J.F.P. Trauma e superação: o que a psicologia, a neurociência e a espiritualidade ensinam. São Paulo: Roca, 2009

RENER, R. Vítimas secundárias de trauma: produzindo sobreviventes secundários. In Psicodrama do trauma: o sofrimento em cena. São Paulo: Ágora, 2010

SANT’ANA FILHO, Olavo, LOPES, Daniela da Cunha (Orgs). O psicólogo na redução dos riscos de desastres: teoria e prática. São Paulo: Hogrefe, 2017

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