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A disforia de gênero é uma construção social ou biológica?

Não se identificar com “as caixinhas” aparece como a disforia de gênero e tudo que a sociedade julga e regula como “desviante do normal”

A disforia de gênero é uma construção social ou biológica?
Pexels

Segundo o DSM-V (2014), a disforia de gênero é um sofrimento afetivo/cognitivo que uma pessoa sente por não se identificar com o gênero designado ao nascer.

Ou seja, a pessoa no processo de percepção da sua identidade transgênero ou em transição vai expressar este sofrimento de diversas formas podendo ser observado através de alguns comportamentos como:

  1. Modo de falar sobre si no gênero oposto e preferência para ser chamado (a/e) como tal; 
  2. Utilização de roupas e adereços do gênero oposto; 
  3. Formas de esconder o sexo oposto, dentre outras.

Além disso, a pessoa transgênero antes de apresentar as mudanças no comportamento, acaba passando por um momento de intenso sofrimento ao perceber não se identificar com o sexo biológico, podendo sentir repulsa da própria genitália.

O que pode desencadear depressão, ansiedade, comportamentos suicidas, entre outros transtornos mentais.

Como a disforia pode ser uma construção social?

Ao longo dos séculos houve casos conhecidos de pessoas transgêneros mudando de cidades ou países, buscando viver de acordo com o gênero que se identificava através de suas vestimentas.

A história de Chervalier D’Eon/Madame Beaumont (1728-1810) auxilia para o pensamento de como a construção pode influenciar para a disforia de gênero.

Essa história trata de um/a funcionário/a do Rei Luís XV, servindo como espadachim e passou 49 anos acreditando ser uma mulher que algumas vezes se vestia de homem e a tolerância do rei e da sociedade francesa o/a permitiu conviver entre os gêneros sem perda de posição na corte.

Foi a partir do século XX que a transição entre os gêneros foi identificada como doença, permanecendo assim até o ano de 2018 como um transtorno mental. 

A simplicidade binária (vagina-mulher-feminina versus pênis-homem-masculino) que se supunha organizar e distribuir os corpos na estrutura social, perde-se, confunde-se.

E finalmente, chega-se à conclusão que ser homem e/ou mulher não é tão simples (BENTO, 2012, p. 11).

Considerar a binaridade de gênero como algo fechado em uma “caixinha” é ter uma visão simplista de gênero, onde não se leva em consideração toda a subjetividade da pessoa em que o gênero irá se expressar do seu próprio jeito independente do que se espera enquanto sociedade.

A construção social da disforia é percebida a partir de como a sociedade dita e quer regular a construção de gênero, logo qualquer pessoa expressando seu gênero fora desse padrão é julgada e vista como “desviante”.

Essa construção compartimentada é ensinada para as crianças de forma direta ou indireta, levando-as a ter a sua própria construção de gênero.

No entanto, não se identificar com essas caixinhas aparece como a disforia de gênero e tudo aquilo que a sociedade julga, dita e regula como errado ou “desviante do normal” cisgênero.  

Tomemos como exemplo o que a côrte do rei e a sociedade francesa do século 18 pôde proporcionar para uma pessoa transgênero?

E o que nós no século 21 fazemos a respeito dessa construção social de disforia de gênero?

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Escrito por João Victor C. Rocha

Psicólogo clínico CRP 10/06479, pós-graduando em Sexualidade e Psicologia e gay. Gosto de falar sobre os temas como machismo, morte e sexualidade. Meu intuito é o de aproximar às pessoas sobre os assuntos da Comunidade LGBTQIA+, tema ainda muito invisibilizado.

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