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Se cuidar para bem cuidar

Se cuidar para bem cuidarSe cuidar para bem cuidar

No texto anterior “Os heróis que sangram” trouxe alguns pontos acerca da realidade dos chamados profissionais de primeira resposta: policiais, equipe de resgate médico de urgência, bombeiros e equipe de atendimento de urgências médicas, seguranças, recepcionistas, enfim todos aqueles que estão na chamada linha de frente da batalha contra a pandemia.

Vimos alguns sintomas que impactam sua saúde mental e como podem refletir, tanto sobre o desempenho das atividades na linha de frente, quanto em suas interações dentro da equipe de trabalho e sua rede de apoio, família e amigos mais chegados.

Um dos transtornos que podem vir a se desenvolver nas fases subsequentes à pandemia é o Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT).

Lembrando que este é um diagnóstico difícil de ser identificado e seus sintomas podem ser comuns a outros, portanto sendo necessário que uma série de requisitos sejam preenchidos.

Também é importante frisar que um mesmo evento traumático pode se configurar em um trauma ou não, variando de pessoa a pessoa, tendo relação direta com a capacidade de resiliência de cada indivíduo, ou seja, a forma particular de cada um interpretar o mundo e as situações que se apresentam.

No texto de hoje gostaria de seguir falando sobre a importância do autocuidado destes profissionais e como estando na sua rede sócio afetiva podemos nos vincular a eles de forma a retribuir seus cuidados, pela via de um olhar amoroso e cuidadoso, fortalecendo sua sensação de pertencer.

Quem cuida precisa ser cuidado

Como vimos anteriormente, os profissionais de primeira resposta estão constantemente em condições também chamadas de “campo tenso”, ou seja, permeadas por uma alta carga de estresse e que demanda uma alta capacidade de resiliência.

O nível de angústia continuará no crescente, enquanto o nível de resposta cada vez menor, o que pode acabar por comprometer o seu campo perceptual, afetando diretamente sua capacidade de análise, reagindo de forma inadequada, ou até mesmo não reagindo.

Dentre algumas reações normais dentro desta realidade anormal destaco:

  • pensamentos recorrentes: acerca da saúde da família e a própria, sobre a morte e o morrer, relações entre a pandemia e o futuro;
  • dificuldade de expressar sentimentos;
  • ansiedade, angústia, pânico, culpa, tristeza, irritabilidade, negação;
  • aumento dos conflitos interpessoais com a equipe de trabalho e familiares, bem com aumento da violência;
  • alterações ou distúrbios de apetite, alterações ou distúrbios de sono;
  • fadiga física, aumento da pressão arterial, problemas cardiovasculares;
  • uso de álcool/ drogas.

Devemos ter em mente a interferência de outros fatores do entorno que podem contribuir para estes comportamentos e devem ser trabalhados dentro do âmbito da unidade de trabalho pela equipe de suporte designada,  como forma de facilitar a discussão e resolução dos problemas apresentados.

Tais como: falta de informação sobre os procedimentos, falta de material de trabalho, falta de EPI, salários atrasados, estes profissionais têm para onde voltar, têm uma rede de sócio afetiva que os suporte, seus familiares estão contaminados, estão sendo estigmatizados com vetores da doença, etc, todos sendo encarados como reais e importantes para a estruturação cognitiva deste grupo para o enfrentamento.

É possível atenuar o impacto de uma situação de emergência sobre os profissionais de primeira resposta por meio de equipes de pessoas treinadas para oferecer esse suporte, que tenham dimensão da tarefa a ser executada, que possam dar treinamentos contínuos como forma de preparação para ocorrências que surjam e que a organização onde estejam trabalhando acolha e reparta o impacto, durante e após a pior fase.

Segundo a OMS, cerca de 1/3 da população mundial exposta a situações como a da pandemia, pode vir a desenvolver manifestações psicopatológicas e possíveis transtornos psiquiátricos caso não haja intervenção na primeira fase de resposta, que compreende os três primeiros meses do evento.

Por isso a importância da percepção dos pontos trazidos acima. Quando profissional não é capaz de dar conta da potencialização deste sofrimento agudo, seja por meio de seus recursos próprios (da sua rede de suporte ou de sua estrutura psíquica), talvez seja a hora de pedir apoio externo para sua estabilização emocional.

Em como o Psicodrama pode auxiliar?

A psicologia aplicada em contextos de emergência e urgência tem sido desenvolvida ao longo de muitos anos em todo o mundo e atualmente conta com uma imensa bagagem de investigações nesta área, desde estudos descritivos e individuais, trabalhos de pesquisas multidisciplinares e até mesmo montagem de propostas de intervenção do psicólogo em situações traumáticas.

Como exemplo trago o exemplo de um dos primeiros trabalhos psicodramáticos com grupos, realizado em São Paulo por meio de Olavo Sant’Anna Filho, entre os anos de 1983-1986 na Coordenadoria Estadual de Defesa Civil e que viabilizava a descarga, a organização e a elaboração de conteúdos emocionais mobilizados, utilizando-se deste método e suas técnicas.

Ele trabalhava com grupos usando o Teatro Espontâneo como forma de desenvolver a espontaneidade e criatividade destes profissionais como forma de que não entrassem em pânico e assim pudessem concluir suas atividades.

Segundo Silva (in Sant´Anna), uma das propostas de intervenção antecipada para a prevenção do TEPT é o psicodrama de Moreno que conta com diversos recursos para manejo precoce do sofrimento psicológico, podendo ser desenvolvido individualmente ou em grupo.

Alguns aspectos interessantes acerca do trabalho grupal:

Por ser em grupo a quantidade de pessoas beneficiadas é maior
É muito eficaz tendo em vista que todos minimamente se beneficiam de cada encontro.

Pode ser um espaço sociometricamente escolhido com base nas questões comuns ao grupo, propiciando maior identificação, acolhimento e maior partilha entre seus membros.

Pode ser um espaço para trabalho da angústia circunstancial precocemente ou como um treinamento para preparação dos membros em como lidar com cenas temidas.

Pode ser um espaço social de discussão para o grupo trocar de depoimentos sobre suas práticas, podendo aliviar a ansiedade gerada pela rotina, além de beneficiar com o efeito agregador e de proteção que vem do grupo.

A terapia de grupo tem um caráter direto e imediato da interação do grupo, trazendo consigo a possibilidade de uma prova de realidade, o chamado lugar do “como se”.

O paciente é confrontado pelas pessoas e situações, como em sua vida real, mas aqui com a vantagem de ser um lugar seguro e moderado pelo psicodramatista.

Outro ponto característico dela é que compreende e integra o processo psicodinâmico do individuo, ou seja, trabalha com a potência de ressignificar e recuperar a espontaneidade.

Moreno dizia em seus primeiros trabalhos que desde as mais primitivas até as mais desenvolvidas civilizações, podemos notar uma sabedoria que é atribuída à força do grupo e que é fundamental à sua estruturação social.

E a psicologia de grupo é a mais antiga que a individual.

“Como se pode ajudar as pessoas que vivem em grupo, mas permanecem solitárias? Como se pode ajudá-las a ser criadoras? (…) Que é um grupo?”

(MORENO p.29)

Apresentamos aqui uma das formas de tratamento criada por Moreno, a Terapia de Grupo, e que vem sendo aplicada no Brasil em situações de urgência e emergência desde 1983, mostrando-se uma possibilidade de intervenção que ajude aos profissionais de primeira resposta no autocuidado.

Até a próxima!

BIBLIOGRAFIA

MORENO, J.L. Psicoterapia de grupo e psicodrama. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1974

SANT’ANNA FILHO, Olavo, LOPES, Daniela da Cunha (Orgs). O psicólogo na redução dos riscos de desastres: teoria e prática. São Paulo: Hogrefe, 2017

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Escrito por Julyana O. Soares

O reencontro com o mais íntimo de mim é a fonte dos insights necessários aos meus movimentos e retomada do protagonismo espontâneo e potente da minha história, tendo apenas o aqui e agora como tempo possível de ser tocado. Psicóloga, coach com foco no Psicodrama e psicodramatista em formação, facilitadora de um programa de desenvolvimento humano e com vivência de 20 anos no âmbito organizacional.

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