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Você está agindo a serviço do que?

Um componente absolutamente necessário de qualquer prática terapêutica é nos perguntar: isso está a serviço do que?
Você está agindo a serviço do que

Nos final dos anos 70, Bob Dylan cantava “você vai ter que servir alguém” (na música Gotta Serve Somebody). A pergunta que quero colocar nesse post é: A quem ou o que você está servindo?

A necessidade dos valores em qualquer trabalho terapêutico

No livro McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality (ainda sem tradução no Brasil), o autor Ronald Purser questiona o que está por trás do movimento de Atenção Plena/ Mindfulness no Ocidente, incluindo o seu uso em muitas abordagens terapêuticas.

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Purser argumenta que os grandes divulgadores da atenção plena a descontextualizaram da ética e valores budistas de onde extraíram essa prática.

Sem tais valores e preceitos éticos (os quais a atenção plena estava a serviço), a prática é vendida como uma ferramenta “neutra” de ideologias, religião ou filosofia, mas que quando inserida no contexto neoliberal, acaba se tornando uma ferramenta de produtividade e otimização.

Ao invés de ser uma prática revolucionária como os seus divulgadores afirmam, o movimento de atenção plena ocidentalizado e corporativo, muitas vezes, acaba tendo o efeito de manter o status quo por não focar nas causas dos sintomas que a atenção plena remedia, como a ansiedade, estresse, depressão, burnout.

Ataca-se os sintomas, agravando as suas causas. Muito do que vemos por aí como atenção plena acaba servindo para alimentar o conformismo, consumismo, corporativismo, passividade e inação.

Nietzsche, já no final do século XIX, falava sobre a genealogia da moral e a distinção entre valores nobres e de escravos.

O filósofo alemão caracterizava os valores de escravos pela sua reatividade, passividade, negação, ressentimento pelos estados exaltados da vida, conformismo e niilismo (a ausência total de sentido da vida).

Já os valores nobres se caracterizavam pelo amor ao destino, pela aceitação e abertura, pela afirmação da vida, pela criação do sentido da vida.

A questão de adotar (ou criar) uma ética e valores não seria uma escolha; todos nós temos valores, sejam eles conscientes ou não.

A questão que Nietzsche nos coloca é se nossos valores nos empoderam ou se nos debilitam. Se eles engrandecem ou apequenam nossa vida.

Em seu livro A Liberated Mind: How to Pivot Toward What Matters (ainda sem tradução no Brasil), Steven Hayes, o autor e um dos criadores da Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy – ACT) afirma que embora a atenção plena seja uma ferramenta terapêutica imprescindível, ela é um meio a serviço dos valores do cliente e não um fim em si – isso recupera o caráter ético que a prática tem dentro do budismo.

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Quando estamos distantes ou desconectados dos nossos valores, da nossa verdade pessoal, agimos tendo em vista somente objetivos socialmente preestabelecidos pela cultura em que estamos inseridos.

Por isso, uma grande parte do trabalho psicoterapêutico consiste em ajudar o paciente a identificar, criar, escolher seus valores: o que é realmente importante para ele, para qual direção ele quer levar sua vida, pelo que vale a pena lutar, que tipo de pessoa ele quer ser, o que ele quer servir.

Esses valores são como uma bússola que apontam para onde ir.

Nesse sentido, poderíamos falar que um componente absolutamente necessário de qualquer prática terapêutica é nos perguntar: isso está a serviço do que? E voltando à forma de valoração de Nietzsche: isso te empodera ou te debilita?

O espírito canibal do egoísmo

Diversas terapias comportamentais contextuais – dentre elas a ACT, a Ativação Comportamental e a Terapia Comportamental Dialética (Dialectical Behavior Therapy – DBT) – resgataram tradições espirituais do Oriente (como a atenção plena) e as uniram ao rigor científico que caracteriza as terapias cognitivo-comportamentais.

Podemos buscar um referencial também em outra prática espiritual ancestral, a qual a humanidade exerceu por muito tempo: o xamanismo.

No xamanismo, existe o conceito de wetiko, um espírito parasita destrutivo, como um vírus mental do canibalismo (literal ou metafórico), motivado pela ganância, egoísmo e excesso de consumo.

O wetiko leva o hospedeiro a acreditar que consumir a energia dos outros para autoengrandecimento ou lucro é uma forma admirável e natural de se viver.

Wetiko é o momento em que tomamos mais do que a nossa parte, ou quando agimos com desrespeito ou falta de compaixão pelos outros.

Como qualquer outro parasita, ao longo do tempo, ele obviamente debilita o hospedeiro.

Ao debilitar a pessoa ou cultura que está “possuída” pelo wetiko, podemos ver claramente que ele é um conjunto de valores de escravos, no sentido que Nietzsche empregava a expressão.

No livro The Shamanic Journey: A Practical Guide to Therapeutic Shamanism, o autor o autor Paul Francis descreve o wetiko como o espírito dos nossos tempos.

Na verdade, o espírito predominante desde que abandonamos o modo de vida dos caçadores e coletores, no qual vivemos mais do que 95% do nosso tempo aqui na Terra.

Francis afirma que o primeiro passo para expulsar esse “espírito” é tomar consciência dele.

Até que ponto estamos servindo ao wetiko?

Atualmente, vemos as pessoas se identificarem usando o nome da empresa como sobrenome e o nível na hierarquia organizacional como um símbolo de status:

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“oi, eu sou o João, gerente da empresa X”, mas corporações são apenas organizações que buscam o lucro (pessoas jurídicas, não pessoas físicas – como fantasmas); quem têm valores são as pessoas, não as empresas.

Ou nos definimos pelas marcas que consumimos (ou o tipo de consumo) e somos consumidos. Ou ainda pelo texto que segue um @ e que persegue seguidores. Ou pelas caixas e identidades que nos colocamos dentro e buscamos reconhecimento dos outros que estão na mesma caixa e dos outros que estão em caixas diferentes.

Ao mesmo tempo em que falamos de consumo consciente dos recursos do planeta, nos exploramos e nos consumimos – nos canibalizamos – sem nenhuma consideração por nós mesmos.

Essas diversas fomes são formas socialmente aceitas e até incentivadas de wetiko em nossa cultura.

São fomes insaciáveis que nunca nos preenchem; pelo contrário, quanto mais consumimos, mais aumentamos essa fome e menos plenos nos sentimos.

Estamos sempre em busca de mais. E o custo disso são nossos verdadeiros valores.

Não existe neutralidade no que se refere a valores.

Ou agimos conscientemente em nome deles ou agimos inconscientemente contra eles (e a favor de outros valores). Ou eles nos empoderam ou nos debilitam.

Não temos a opção de não escolher. Não escolher já é uma escolha, mas realizada pelos outros, pelo espírito do nosso tempo.

Por isso, se pergunte: você escolhe estar a serviço do que?

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Sobre o autor(a)

Luciano Lobato

Luciano Lobato

Psicólogo clínico com ênfase no tratamento da ansiedade e depressão, e fascinado pela interseção entre as ciências comportamentais e a espiritualidade.
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