Diferente da terapia individual, acolher casais na clínica exige do profissional uma escuta ampliada, mais atenta às múltiplas camadas que atravessam a relação.
Não se trata apenas de compreender duas histórias individuais, mas de acompanhar algo que se constrói entre essas histórias.
Costumo dizer que o casal é como um terceiro organismo vivo. Ele nasce do encontro entre duas (ou mais) pessoas, carrega traços de cada uma delas e, ao mesmo tempo, desenvolve características próprias.
Esse “terceiro” precisa de cuidado, atenção e afeto, tal qual uma criança em desenvolvimento e, será conduzido ao amadurecimento pelos adultos responsáveis por ele.
Presume-se que esses adultos sejam responsáveis, autorresponsáveis e funcionais. No entanto, assim como no cuidado e na educação de uma criança, muitos aspectos só serão compreendidos ao longo da experiência da relação.
Outros se apresentarão como reprodução daquilo que foi aprendido nas fases mais primitivas do desenvolvimento: formas de amar, de se defender, de silenciar, de atacar, de fugir.
Mas por que é preciso ir tão fundo para falar de terapia de casal?
Nenhum encontro acontece no vazio
No livro “O Espírito da Intimidade“, Sobonfu Somé compartilha a perspectiva do povo Dagara sobre a união entre duas pessoas que formarão uma família.
Ela descreve que, nesse processo, existe toda uma comunidade por trás do casal. Uma comunidade que tem responsabilidade pelos adultos que aquelas pessoas se tornaram e, consequentemente, corresponsabilidade pela qualidade dessa união.
Essa visão desloca a ideia de que o relacionamento é um assunto puramente privado. Nenhum ser humano chega a um vínculo desprovido de história, experiências e expectativas.
Cada pessoa carrega consigo aprendizados familiares, memórias afetivas, traumas, crenças sobre amor, gênero, compromisso, poder e liberdade.
Sobonfu também compara essa experiência comunitária com a experiência ocidental de relacionamento, fortemente marcada pelo ideal do amor romântico.
A idealização do “encontro perfeito” muitas vezes constrói a fantasia de que a relação será naturalmente harmônica e curativa. A tampa finalmente encontrou sua panela e “foram felizes para sempre”.

Parafraseando Renato Noguera, doutor em filosofia que dialoga com a filosofia africana, amar pode ser fácil; difícil mesmo é a convivência.
A pergunta que fica é: será que o príncipe e a princesa foram realmente felizes para sempre em seu castelo “tão, tão distante”?
A convivência é o espaço onde idealizações cedem lugar à realidade. E é nesse espaço que a terapia de casal se torna necessária.
Uma escuta fundamentada na experiência vivida
Meu trabalho com casais dialoga com a fenomenologia-existencial. Isso significa olhar para a relação a partir da experiência concreta vivida pelas pessoas envolvidas, como cada uma percebe, sente, interpreta e responde às situações.
Sem buscar culpados, visa compreender sentidos. Mais do que encaixar comportamentos em categorias, investiga como o casal constrói sua forma singular de estar no mundo.
A fenomenologia-existencial nos convida a reconhecer que cada pessoa é responsável por suas escolhas, mas também é atravessada por sua história, seu contexto e suas relações.
Assim, a terapia se torna um espaço de ampliação de consciência: sobre si, sobre o outro e sobre o “nós” que está sendo construído.
Elaboração de traumas vividos na relação

Muitos casais procuram terapia após vivenciarem situações que abalam a confiança: mentiras, traições, rupturas de acordos, afastamentos emocionais.
No entanto, frequentemente, esses episódios são apenas a ponta de um iceberg mais profundo.
Indivíduos que não aprenderam a expressar sentimentos e expectativas tendem a se machucar mutuamente.
Relações sem acordos definidos de forma clara e honesta tendem a sofrer com frustrações acumuladas. Casais que não desenvolveram intimidade emocional podem se afastar diante de perdas, lutos ou crises.
A terapia não promete apagar o que aconteceu. Ela oferece um espaço para elaborar, compreender e decidir, com mais consciência, que caminho seguir.
Dinâmica do relacionamento: o que está em jogo?
A dinâmica de um relacionamento é atravessada por:
- Histórico individual
- Experiências afetivas prévias
- Projeções e idealizações
- Concepções sobre amor e compromisso
Inclusive, a forma como o casal organiza sua relação, seja monogâmica, não monogâmica, poliamorosa ou aberta, precisa estar sustentada por diálogo, acordos conscientes e responsabilidade afetiva.
Não é o formato que garante saúde à relação, mas a qualidade da comunicação e da intencionalidade envolvidas.
Quando expectativas não são nomeadas, elas tendem a se transformar em cobranças silenciosas.
Quando limites não são reconhecidos, tornam-se fonte de ressentimento.
Comunicação: mais do que falar, saber se posicionar
É comum que conflitos estejam relacionados à dificuldade de comunicação. Pessoas que não conhecem suas próprias reações diante de seus sentimentos dificilmente conseguirão estabelecer uma comunicação eficaz dentro de um relacionamento que necessita de acolhimento, segurança e disponibilidade.
Ferramentas como a Comunicação não-violenta (CNV) podem auxiliar, mas antes disso é preciso desenvolver autorreconhecimento.
Muitas discussões não dizem respeito apenas ao conteúdo explícito da fala, mas às projeções, às feridas antigas e às expectativas idealizadas que são ativadas na interação.
Na terapia, buscamos desacelerar o conflito para compreender o que, de fato, está sendo vivido.
Acolhimento: o que falta quando se procura ajuda?
Muitos casais chegam à terapia relatando não se sentirem acolhidos dentro da relação.
A sensação de não ser visto, ouvido ou validado pode funcionar como gatilho para questões antigas (elaboradas ou não) e transformar o relacionamento em espaço de repetição de violências simbólicas.

É importante ressaltar que a terapia de casal não substitui intervenções necessárias em casos de violência física ou situações que coloquem alguém em risco. O cuidado ético exige avaliar cada contexto com responsabilidade.
Quando há disponibilidade mútua para escutar e refletir, o processo terapêutico pode favorecer a construção de novas formas de encontro.
Intencionalidade: o amor como construção
Existe uma crença difundida de que o amor, por si só, sustenta tudo. No entanto, a experiência clínica mostra que o amor precisa ser acompanhado de intenção e propósito.
Entendendo que o amor é uma construção diária, torna-se possível compreender que tão importante quanto o afeto é a decisão de seguir junto uma jornada.
O amor não elimina as instabilidades e fragilidades da existência humana. Ele não apaga limites pessoais, diferenças ou conflitos.
É necessária autorresponsabilidade para reconhecer o próprio limite e responsabilidade ao lidar com o limite do outro. Relações maduras não são aquelas sem conflitos, mas aquelas em que há disposição para dialogar sobre eles.
A terapia como possibilidade de construção singular
A terapia de casal se torna, portanto, um espaço onde esse “terceiro organismo” pode se constituir de forma singular, pautada na história dos indivíduos envolvidos.
Não se trata de alcançar um modelo ideal de relacionamento, mas de desenvolver uma experiência real e única. Aquela que faz sentido para aquele casal.
Desde que haja disposição para acessar complexidades, rever padrões e sustentar conversas difíceis, a terapia pode favorecer maior clareza sobre o que se deseja construir (ou não) juntos.
No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “como salvar a relação?”, mas “que relação estamos dispostos a construir?”


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