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Mês da Consciência Negra. Sororidade. Dororidade.

O racismo não é empático. Pessoas racistas não expressam sororidade. Menos ainda dororidade.

Mês da Consciência Negra. Sororidade. Dororidade.
Marco allasio by Pexels

Estamos no mês da consciência negra, ocasião mais do que propícia para olhar nossa trajetória de descendentes de escravizados no continente africano.

Fomos submetidos aqui no Brasil, e em outros lugares do mundo, a tratamento onde nos foi negado a humanidade.

Em nosso pais foram quatrocentos anos de escravização.

Nesse momento, refletindo a respeito de inumeráveis dificuldades, temos algumas conquistas a considerar, embora o caminho para a igualdade ainda esteja distante de ser concluído de maneira que a igualdade seja realmente considerada e consolidada.

Observamos o movimento negro e o feminismo negro, deslocando-se positivamente.

Demostrando a uma sociedade de formação racista, que enquanto as desigualdades não forem neutralizadas não nos descolaremos desse perfil equivocado de democracia racial.

Refletindo sobre o tema penso que através das palavras e seus significados ajudamos no entendimento do que pode ser essa construção difícil de variadas nuances.

O que para uma pessoa significa demonstração clara de racismo, para outra significará apenas preconceito social ou qualquer outra coisa que importe menos, desqualificando e minimizando um tema importante.

Empatia: É fundamental conhecer o real significado desta palavra

Para trabalhar a eliminação do racismo uma ferramenta importante é entender e desenvolver o conceito de uma palavra que está na moda: empatia.

No dicionário encontramos definição extensa de empatia, desde ser a ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias.

Aptidão para se identificar com o outro, sentido o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc.

Na psicologia é a identificação de um sujeito com outro; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la.

Sororidade & Dororidade

Mulheres praticam empatia entre si, que é a sororidade.

A relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs.

União de mulheres que compartilham os mesmos ideais e propósitos, normalmente de teor feminista, sendo caracterizada pelo apoio mútuo evidenciado.

Mulheres pretas sentem dororidade, que para explicar cito Vilma Piedade, inventora do conceito e autora de livro com o mesmo nome.

Dororidade carrega no seu significado a dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo.

Contudo, quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa dor.

A Pele Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado. É só verificar os dados…

A Sororidade parece não dar conta da nossa pretitude.

Foi a partir dessa concepção que pensei em outra direção, num novo conceito que, apesar de muito novo, já carrega um fardo antigo, velho conhecido das mulheres: “a Dor – mas, neste caso, especificamente, a Dor que só pode ser sentida da cor da pele. Quanto mais preta, mais racismo, mais dor.”

O racismo não é empático. Pessoas racistas não expressam sororidade. Menos ainda dororidade.

São sentimentos que necessitam de intersecção para serem exercidos.

Seria bastante interessante que toda a empatia recebida durante o mês da Consciência Negra, permanecesse o ano inteiro.

A sociedade precisa entender que quem suporta racismo não recebe empatia, sororidade e muito menos dororidade.

Separo essa questão em duas partes:

A primeira, seria refletir como mulher negra submetida ao racismo e ao machismo, que gostaria de ser entendida e acolhida em questões importantes que me atravessam em decorrência de toda a hostilidade recebida, gerada por essa condição.

A segunda é do lugar psicóloga clínica e da importância do psicólogo ser empático.

A partir da observação da falta de percepção mais delicada, afinada, de colegas brancos que não apreendem a subjetividade das emoções de pacientes que apresentam esse sofrimento.

Por vezes as camadas emocionais são sobrepostas. Elas necessitam de reconhecimento e tratamento empático.

Conhecer o sentido das palavras e fazer com que o exercício de seu significado produza efeitos positivos, é empatia.

Entender que o mês da Consciência Negra é importante para que a sociedade entenda e se aposse da causa essencial que proporcionará reconhecimento e desenvolvimento de mais de 54% da população, é empatia.

Isto envolverá como vimos, sororidade, dororidade e mais o que puder contribuir para o tratamento da questão tão delicada que é o racismo.

Empatia, sororidade, dororidade e eventos que ocorrem no mês da Consciência Negra são ferramentas potentes, capazes de nos levar a igualdade sem que levemos em conta classe social, sexo, gênero, origem, religião etc.

O mês da Consciência Negra é movimento de empatia que precisa ser entendido, exercido e estendido.

Tudo que pode ser referenciado para transformar nossa sociedade em um lugar mais justo e confiável será válido e nos fortalecerá particularmente como pessoas e generalizadamente como sociedade.

Referências:
Dicionário On Line da Língua Portuguesa
Dororidade – Vilma Piedade

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Escrito por Eneida de Paula

Psicóloga Clínica CRP 06/135390 com especialização em Psicologia e Relações Raciais pelo AMMA Psique e Negritude. Interesse pelas relações raciais e como o sofrimento apresentado em consequência do racismo atravessa o indivíduo e o afeta somaticamente, e na necessidade de haver, por parte do profissional psicólogo empatia e recursos para atender essa demanda.

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