Silêncio, por favor: a urgência de compreender a misofonia
A guerra invisível de quem vive em alerta constante
A guerra invisível de quem vive em alerta constante
Imagine alguém se cortando, em silêncio, todos os dias. Não com lâminas visíveis, mas com escolhas. Escolhas que machucam por dentro: ficar em um emprego que adoece, insistir em um relacionamento que fere, recusar ajuda quando ela chega, comer compulsivamente até não sentir mais nada. Parece exagero? Não é. Essa é a realidade invisível de muitas pessoas que praticam o que chamamos de automutilação emocional. Quando o sofrimento se disfarça de responsabilidade Diferente da automutilação física, a emocional não sangra. Mas sangra. Não deixa cicatrizes na pele, mas acumula feridas na alma. Ela se manifesta em comportamentos de autossabotagem, em rotinas de sofrimento crônico, em relações desequilibradas, em silêncios que gritam por dentro. E, o mais assustador: muitas vezes, quem sofre, acha que merece sofrer. Automutilação emocional é um conceito que ainda não aparece de forma consolidada nos manuais diagnósticos como DSM-5 ou CID-11, mas vem sendo discutido por psicólogos e terapeutas como uma forma sutil — e potente — de autodestruição. Trata-se de manter, consciente ou inconscientemente, padrões de vida que causam dor, por culpa, baixa autoestima ou sensação de indignidade. A metáfora aqui é clara: é como uma prisão sem grades, construída pelas próprias mãos. Quem está dentro até vê a saída, mas sente que não tem o direito de atravessar. Ou pior: acredita que merece permanecer ali. A dor que vira identidade Muitos dos meus pacientes chegam ao consultório dizendo: “Eu sei que não estou bem, mas não consigo sair disso” “Já tentei mudar, mas parece que algo em mim boicota qualquer tentativa”. O ponto em comum? Uma dor antiga que foi se transformando em identidade. Vamos imaginar: Rosa, 38 anos, em um casamento abusivo há mais de uma década. O marido a humilha, controla suas finanças, isola-a dos amigos. Ela já pensou em sair inúmeras vezes, já recebeu apoio da irmã, da terapeuta, de colegas. Mas sempre volta atrás. “Eu já fiz muita coisa errada na vida”, ela diz. “Talvez esse seja o meu castigo.” O casamento virou punição, e a punição virou merecimento. Ou então Lirio, 41 anos, analista em uma empresa que o consome. Trabalha 12 horas por dia, nunca é reconhecido, tem crises de ansiedade aos domingos e dores de cabeça constantes. Ele sonha em empreender, mudar de carreira, dar aulas. Mas diz que “não tem talento”, que “a estabilidade é o melhor a fazer”. Na verdade, ele tem medo de ser feliz. A automutilação emocional costuma ter esse traço perverso: disfarça sofrimento de responsabilidade, e castigo de compromisso. Compulsões e o ciclo de anestesiar a dor Quem vive em sofrimento constante precisa, vez ou outra, de uma válvula de escape. É aí que entram os chamados comportamentos de regulação artificial — como uso de álcool, pornografia, sexo compulsivo, jogos, comida ultraprocessada, compras impulsivas. São alívios temporários que injetam dopamina no cérebro, gerando uma sensação fugaz de prazer ou controle. Mas o preço é alto. É como tomar analgésico para uma fratura exposta. O remédio alivia a dor, mas não resolve a causa. E quando o efeito passa, a dor volta mais intensa — junto com a culpa, o vazio, a vergonha. A compulsão alimentar, por exemplo, é uma forma comum de automutilação emocional. Não se trata de “falta de força de vontade”, mas de uma tentativa desesperada de preencher um buraco afetivo. O corpo engorda, os exames alteram, a autoestima afunda. E ao invés de acolher a dor, a pessoa se pune por ela, entrando num ciclo autodestrutivo que reforça a ideia de que ela merece estar ali. A obesidade, especialmente nos casos severos, também pode ser vista como um grito silencioso. Há quem coma para anestesiar emoções, para ocupar espaço, para se proteger do olhar alheio. O corpo se transforma em armadura — e ao mesmo tempo em alvo de preconceito. A mulher que engordou 30 quilos após o divórcio não o fez por desleixo. Talvez tenha sido sua forma de sobreviver ao luto afetivo. O homem que não consegue parar de comer doces durante a madrugada talvez esteja buscando no açúcar a dopamina que perdeu junto com o emprego. A questão aqui não é moral, é emocional. Outro terreno fértil para a automutilação emocional são os empregos ruins e os relacionamentos tóxicos. Muita gente continua onde sofre, não porque não percebe, mas porque acredita que sair é pior. “Mas se eu sair desse emprego, quem vai me contratar?”“Se eu terminar com ele, quem vai me amar de novo?” “Eu nem sei mais quem eu sou sem essa rotina, mesmo sendo ruim.” Essas frases revelam uma identidade construída no sofrimento. Pessoas que foram invalidadas emocionalmente na infância, que ouviram que “estavam exagerando”, que “ninguém gosta de gente fraca”, acabam, na vida adulta, tolerando situações inaceitáveis. Elas internalizaram a ideia de que não têm valor — e passam a se tratar assim. Um dos exemplos mais emblemáticos da automutilação emocional é a recusa do próprio tratamento. A pessoa vai ao psiquiatra, recebe prescrição, mas não toma a medicação. Inicia a terapia, mas some. Alega que está melhor, que “vai tentar sozinha”. Mas, no fundo, acredita que não merece melhorar. “Se eu melhorar, quem vai pagar pelos erros que cometi?” “Eu não quero esquecer tudo o que sofri.” “Se eu ficar bem, posso me machucar de novo.” É uma lógica cruel. O caminho da cura: dar nome à dor e se permitir viver O alívio passa a ser visto como traição ao sofrimento. A dor vira uma espécie de lealdade a si mesmo. E qualquer gesto de autocuidado parece egoísmo. A automutilação emocional tem raízes profundas. Pode ser consequência de traumas, abusos emocionais, rejeição, abandono, bullying, cultura religiosa punitiva ou mesmo ambientes que desvalorizam emoções. Ela cresce onde há vergonha, medo, culpa. Além disso, vivemos em uma sociedade que romantiza o sofrimento. Quantas vezes ouvimos que “é lutando que se vence”, “no pain, no gain”, “quem ama, sofre”? Essas ideias reforçam a noção de que a dor é prova de valor, e que pessoas felizes são superficiais ou egoístas. Essa mentalidade faz
O desafio invisível de existir com o humor entre dois polos